Morreu com ótima saúde!

Quem não ouviu essa piada? Fulano estava com ótima saúde, e bateu o pacau.

Hoje, no Caderno Aliás, do Estadão, um texto que me fez muito bem, e que assino embaixo. Assinado por Eduardo Goldenberg, advogado carioca, autor do livro “Meu Lar é um Botequim” (já encomendei), é desses que lava a alma. Aliás, o “Aliás” de vez em quando publica matérias que redimem uma boa quantidade das babaquices perpetrada diariamente pelo vetusto (melhor diria, velhusco) matutino que, algum dia, foi dos Mesquita.

O texto do Goldenberg, Bacon, seu gostoso , é uma apologia da comida gostosa e do bom viver, e uma gozação devastadora em cima dessas recomendações que volta e meia médicos, organizações de saúde e quejandos jogam para ameaçar o apetite e o bom viver das pessoas.

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No final do texto, conclui:

“Hoje, é uma de minhas bandeiras: não fazer parte dessa manada a caminho (com saúde impoluta) do sacrifício, da morte, do desaparecimento súbito e para sempre. Afinal, qual a graça de envelhecer (e de morrer) com a saúde que esses alertas da OMS pregam? Porque eles não almejam, exatamente, a saúde, eles almejam é processar (olha o processamento aí!) a humanidade, transformá-la numa massa amorfa, marchando (como se numa manada) com total assepsia em direção à inevitável morte, que sempre há de vir”.

Por certo, não quero morrer com saúde. Quero continuar desfrutando dos meus cigarros, meu uísquinho (que afinal, como dizia o Vinícius, é o cachorro engarrafado e eu, que detesto pets, me dou muito bem com esse melhor amigo do homem), ouvindo boa música, lendo bons livros, sempre pensando em política, me divertindo com amigos, filhos e netos. Amando sempre.

Da minha parte digo (a Maria José detesta que eu fale assim, mas como os homens vivem menos que as mulheres, aviso logo aos meus amigos): Quando eu morrer, não quero choro nem velas, mas também não quero só uma fita amarela gravada com o nome dela. Quero mais. Quero todo mundo bebendo, cantando e comendo. Falando das minha virtudes (poucas?) e das minhas canalhices (quantas?).

Acho que, no fundo, minha admiração pelos irlandeses vem da sua boa literatura, do uísque bem legal que eles fazem, da cerveja Guiness e da tradição do “wake”, essa alegre despedida abastecida com as comidas, bebidas e músicas que o falecido gostava.

Agora, pra cozinha, preparar um cabrito à caçadora com arroz e com bacon no refogado!

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J. J. Posadas, discos-voadores, Eduardo Cunha – ou como tudo é uma conspiração do PT

O bom das teorias conspiratórias é sua extrema flexibilidade.

O “estado da arte” atualmente é o seguinte:

O PT conspirou com o Moro e com o Janot para indiciar seu tesoureiro, dirigentes partidários, e desarticular os esquemas de financiamento de todas as campanhas, de todos os partidos porque tem capilaridade e pode conseguir grana com os afiliados. Além do mais, mandou o Janot fazer pressão sobre o Cunha, mas é só de brincadeirinha, é para ele afrouxar com o governo, depois de passar dez meses sacaneando, e daqui a pouco estará no ministério (de Comunicações, talvez). E o Cunha sabia disso tudo, e por isso fez o que fez!

J. J. Posadas esperando a chegada dos discos-voadores

J. J. Posadas esperando a chegada dos discos-voadores

Porra, e ficamos aí falando mal da articulação política do governo! Os caras são gênios! Que capacidade de planejamento! Que precisão cronométrica nas ações!

Putz, esqueci de incluir os procuradores suíços no esquema! Mas eles estão lá, com certeza. São petralhas disfarçados dentro da Confederação Helvética.

Me dá saudades do J.J. Posadas, folclórico dirigente trotskista que anunciava esperar a chegada dos discos-voadores, pois certamente eram a vanguarda cósmica do proletariado. Pelo visto, já chegaram.

 

A chegada da "vanguarda cósmica" para reforçar as hostes do PSDB, DEM, PPS, et caterva.

A chegada da “vanguarda cósmica” para reforçar as hostes do PSDB, DEM, PPS, et caterva.

E, para não pensarem que é lenda que o Posadas achava que os extraterrestres eram a vanguarda cósmica do proletariado, eis aqui o link para uma versão em inglês da “obra” do argentino: https://www.marxists.org/archive/posadas/1968/06/flyingsaucers.html .

A capacidade da humanidade de dizer merda é realmente infinita!

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VETOS E DADOS – OS 16 BILHÕES

Na quinta-feira passada, dia 8, nosso editor do PublishNews publicou um artigo intitulado “De onde vem os 16 bi da Dilma“, comentando o publicado no blog do Planalto, onde afirmava que o custo de uma das “pautas-bomba” vetadas pela Presidenta e em exame na Câmara dos Deputados custaria 16 bilhões de reais até 2019. O artigo vetado dizia respeito a uma proposta que modificava a legislação do Imposto de Renda cuja primeira formulação é de 1995, com valores reajustados todos os anos. A modificação deste ano é a tal Lei 13.149/2015, parcialmente vetada, e que isentava os professores de pagar Imposto de Renda se comprassem o valor em livros.

Foi uma matéria importante e oportuna, pois o Leonardo Neto levantou um assunto para o qual poucas pessoas (eu inclusive) não estavam prestando atenção. O Leonardo Neto fuxicou um pouco o assunto e, com base nas informações do mercado (produção editorial e faturamento), divulgada pelo SNEL e pela CBL, concluiu: “A matemática palaciana parece equivocada. Tomando por base a pesquisa encomendada à Fipe, pela CBL e pelo SNEL, o faturamento total das editoras em 2014 foi de R$ 5.409 bilhões. Dados da Nielsen dão conta que no ano passado o mercado varejista de livros faturou R$ 1.461 bi. Muito a grosso modo, pelas contas da presidente Dilma e de sua equipe econômica, a isenção que seria dada a professores na compra de livros seria algo em torno de R$ 4 bilhões/ano ou 74% do faturamento das editoras ou quase três vezes o tanto que o varejo faturou com a vendas de livros, segundo os dados da Nielsen.”

A notícia chocou e provocou comentários irados de leitores, que diziam que “era assim a tal Pátria Educadora”, “como é possível negar dinheiro para os professores comprarem livros”, etc. Confesso que também levei o maior susto, quando li a notícia.

A conta do Leonardo Neto estava certa, com os dados que usou.

Só que houve um equívoco, quanto aos dados a serem comparados. Essa certeza adquiri depois de, eu mesmo, fuxicar dados e a própria legislação.

Com a minha idade, já tenho uma casca de ceticismo bem grossa quanto às afirmações do governo. Todo governo – seja lá qual for sua tendência política – tende a mascarar ou manipular dados. Só que o esforço de transparência nos dados, aqui e alhures, torna essas tentativas de manipulação mais evidentes. É possível conferir quase tudo indo direto às fontes.

No caso, não houve nenhuma tentativa de mascarar ou manipular dados. A razão de divulgar o veto dessa maneira é que mostrou-se incompetente.

Mas comecei buscando ver de onde vinham os tais 16 bi. Macaco velho, fui direto no site da Receita Federal. Todos que já preencheram uma declaração de IR sabem que ali deve ser declarada a profissão, que indica a origem principal dos rendimento declarados. Portanto, “professor” seria, necessariamente, um dado na compilação de informação da Receita Federal.

E me perdi no site, diante da enorme massa de informações fiscais disponíveis.

Fui para o Portal da Transparência, por onde se exerce o direito de informação legal, fiz o cadastro e perguntei: “Necessito de informações sobre o recolhimento de imposto de renda de pessoas físicas, consolidado anualmente de 2010 a 2014, com especificação da categoria profissional dos declarantes (p. ex. professor, advogado, etc.)”.

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Franzen, um autor de frente para o mundo

images FSG – Amazon Kindle R$ 59,00 (577 páginas)

 

Acabei de ler o novo romance de Jonathan Franzen, Purity. Como os anteriores, a história gira em torno da família, com personagens que entram e saem desse núcleo. Também como os anteriores, o romance se estrutura em blocos com a narrativa centrada em cada um dos personagens.

Purity – que é conhecida como Pip, e as referências ao Great Expectations do Dickens saltam de vez em quando – é uma garota, recém saída da universidade com uma dívida estudantil de US $ 130.000. Não sabe direito o que fazer. Pior. Sabe que Tyler, o sobrenome que sua mãe lhe deu, não é o verdadeiro. Não sabe quem é o pai, informação que a mãe recusa terminantemente a fornecer.

A mãe parece uma representante deslocada da “Flower Generation”, amalucada, com um subemprego como caixa de supermercado em uma dessas cidadezinhas perto de Oakland, na baía de São Francisco. Purity, também subempregada no que parece ser uma corretora de “energia verde”, mora com outros tantos defroquês em uma casa que foi propriedade de um deles – esquizofrênico – que está sendo despejado por um banco que a quer retomar por conta da hipoteca não paga.

O romance todo se organiza em torno de Purity, da mãe – e a busca do pai. Só que outro personagem importante é introduzido logo nessa primeira seção por um casal de alemães que supostamente chega lá no meio de uma “pesquisa” sobre moradores de casas ocupadas. A mulher, Annagret, convence Purity a preencher um questionário se candidatando a um estágio remunerado junto a um projeto “Sunlight”. Quem dirige é Andreas Wolf, da ex-Alemanha do Leste, que aparece no filme como uma espécie de Assange, divulgando documentos para “expô-los à luz do sol”. Como se verá adiante, há um crime sério envolvido na trama, e o crime e Wolf são catalizadores do desfecho.

As seções seguintes são narradas do ponto de vista de Andreas – filho de um alto dirigente da antiga DDR (Deutsche Demokratische Republik – a “Alemanha Oriental”) e que, por circunstâncias várias, acaba aparecendo com um dissidente. Em seguida, em uma seção cuja voz é a de Leila Helou, jornalista investigativa, sabemos que Purity está trabalhando em um site de jornalismo investigativo em Denver, dirigido por Tom Aberant (os nomes que o Franzen escolha são realmente ótimos). Leila, sua amante e jornalista investigativa premiada, investiga um caso de desvio de um míssil nuclear, a partir de informações que foram levadas até eles por Purity. Outras peças do quebra-cabeças são dadas por Purity, narrando sua experiência como estagiária no “Sunlight”, e em seguida a voz passa para Tom, narrando sua vida. Andreas volta, no capítulo mais eletrizante do livro, acrescentando mais dados ao puzzle e 0 final outra vez é narrado por Purity, de volta a Oakland e à sua mãe.

Essa estrutura complexa, com narrativas aparentemente fechadas em si mesmas – o que às vezes causa alguma confusão cronológica na cabeça do leitor – vai compondo o imenso painel, que inclui, além dos temas comuns do Franzen – família, relações familiares e como essas se inserem na sociedade dos EUA – um repúdio contundente a certas manifestações da Internet, e particularmente a isso que aparece como “jornalismo” de vazamento de documentos. O bom é que a coisa fica demonstrada na prática, com o excruciante trabalho da Leila para fazer a matéria sobre o míssil nuclear, que se transforma em belo exemplo do que é jornalismo de verdade. Isso é complementado por uma parte das elocubrações do próprio Andreas, endeusado pelo internéticos, e que no meio da sua segunda intervenção solta essa:

“A velha República [DDR] certamente havia-se superado na vigilância e nas paradas, mas a essência de seu totalitarismo havia sido mais cotidiana e sutil. Você podia cooperar com o sistema ou se opor a ele, mas algo jamais podia fazer, levasse uma vida segura e agradável ou estivesse na prisão, e era não estar em relação com ele. A resposta para cada questão, pequena ou grande, era socialismo. Se você substituir networks por socialismo, tem a Internet. Suas plataformas competitivas se uniam na ambição de definir cada termo de sua existência.” […] “O Novo Regime [a Internet, F.L.] até mesmo reciclou o palavreado da República, coletivo, colaborativo. Axiomático dos dois era que uma nova espécie de humanidade emergia. Nisso, os apparatchiks de todas as pelagens concordam. Jamais parecia incomodá-los que as elites dirigentes consistissem em exemplares da brutal e ávida velha espécie da humanidade”. […] “O objetivo da Internet e de suas tecnologias associadas era “libertar” a humanidade das tarefas – fazer coisas, aprender coisas, lembrar-se de coisas – que previamente davam significado à vida, e dessa maneira constituíam a vida. Agora parecia que a única tarefa que significava algo era a optimização dos mecanismos de busca”.

Mas não se preocupem. Esses trechos estão totalmente inseridos na história, e não se trata de pedaços simplesmente declaratórios. Fazem parte da última seção na voz de Andreas que encadeia fatos, elocubrações e o fluxo mental de sua deterioração psíquica.

O romance não deixa de ter seus problemas. Achei o final um tanto abrupto, se é que se pode dizer isso de um romance desse tamanho. Mas o importante é que em Purity “a vida anima o todo”, exatamente o contrário do que caracteriza uma literatura decadente, como definida na citação do Nietszche que achei outro dia: “Como se caracteriza a decadência na literatura? Pelo fato de nela a vida não mais animar o todo. As palavras se tornam predominantes e saltam de dentro da sentença da qual fazem parte, as próprias sentenças ultrapassam seus limites, e obscurecem o sentido de toda a página, e a página por sua vez ganha vigor à custa do todo – e o todo já não é um todo. Mas essa é a fórmula de todo estilo decadente: há sempre anarquia entre os átomos”.(Nietszche contra Wagner).

Franzen, como vários outros romancistas do norte, como Margaret Atwood, Dennis Lehanne, Don de Lillo, David Foster Wallace, o falecido Doctorow e tantos outros, mostram que o significado da literatura, e especialmente do romance, continua forte e fecundo quando os autores lançam seus olhares para o mundo e, através de narrativas bem construídas – inclusive com experimentações formais – deixam de olhar apenas para dentro de si e de seu pequeno mundo particular, como anda tanto em voga por estas plagas.

De bônus, o capítulo narrada por Leila é uma aula de jornalismo investigativo: como se corroboram informações, e como a partir de uma foto (que já é interessante), quem sabe puxar o fio da meada vai descobrindo mais coisas.

Seria ótimo se alguns dos “jornalistas investigativos” da Pindorama aprendessem. Mas, como sabemos, muitos se se qualificam como tais porque publicam vazamentos selecionados sem nenhuma apuração.

“Purity” é um ótimo romance nessa tradição, e faz jus à trajetória de seu autor.

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PETRA, PRETA E A CRISE

A coluna de hoje do Bessa me incentivou a comentar algumas coisas que penso faz tempo. Tem a ver com a Petra, a Preta e também com a crise.

Não apenas a crise que vivemos aqui, mas como tudo isso é expressão de um problema bem maior.

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Um dos episódios da última campanha presidencial que achei mais interessante – e que foi pouquíssimo divulgado no clima de ódio que começou por ali e continua até hoje – foi um debate entre o Guido Mantega e o Armínio Fraga, mediado pela Míriam Leitão. Eu assisti na época, e tentei até recuperar para postar por aqui, mas o vídeo só está disponível para assinantes da Net…

No debate – no qual a Míriam Leitão se portou muitíssimo bem, como boa jornalista que, quando quer ser, é – a discussão foi de alto nível, entre dois economistas de nível e que se respeitam.

O Armínio, vocês lembram, vivia dizendo que a crise internacional já havia passado, e o que tínhamos aqui no Brasil era um problema de “competência” (já chego lá nesse item). O Mantega, em essência disse que: a) a crise internacional não havia acabado, estava se desdobrando e assumia novas formas; b) por isso mesmo, as medidas que haviam sido tomadas para permitir uma situação relativamente confortável do Brasil nos primeiros momentos não eram suficientes nem corretas dentro desses novos desdobramentos; c) era necessário tomar outras medidas para superar as dificuldades fiscais, a queda no preço das commodities, a desaceleração da China e a situação “soluçante” na Europa, onde a Alemanha quase entrou em recessão técnica ano passado.

Obviamente não adiantou que tipo de medidas deveriam ser tomadas. Afinal, ele já estava praticamente demitido, e substituído está pelo tecnocrata Joaquim Levy. O Mantega pagou o pato pela lucidez, clareza e lealdade, e certamente, se tivesse condições políticas de continuar, não teria adotado essa desabalada – e realmente incompetente – corrida para a direita que o segundo mandato da Dilma está executando.

(As ofensas pessoais que ele sofreu em pelo menos duas ocasiões mostram o quando se deteriorou a civilidade por aqui. Na última, no restaurante, ele conseguiu identificar os dois trogloditas que o xingaram e abriu processo. Os dois, mostrando o quão covardes e oportunistas são, apresentaram humilhantes pedidos de desculpa em troca dele desistir da ação. O Mantega aceitou. Eu sinceramente, não sei se aceitaria…).(Sem falar nos xingamentos à Presidenta da República).

Nem vou me estender mais sobre a incompetência política que a Dilma está demonstrando nesse segundo mandato. Fica para uma próxima.

Mas o caso da Petra e das centenas de milhares de refugiados que fogem do Oriente Média e da África e buscam abrigo em outros países, além da Grécia, da China e de nós mesmos, são, digamos, singela demonstração da gravidade e dos desdobramentos da crise. Não é só a guerra – que evidentemente é um dos fortes gatilhos para a fuga dos coitados – como a situação de crise que continuamos vivendo. Crise que leva ao fortalecimento das direitas pelo mundo afora, acirra os medos e os ódios e elimina os mínimos resquícios de solidariedade e trabalho comum que afinal de contas, nos fizeram humanos.

Achar os Bates e Saint-Hilaire hoje anda cada vez mais difícil. O que abunda por enquanto, além dos xingadores, são as Petra, os Trump, as Marine Le Pen et caterva.

Mas vamos ao Bessa, que é melhor.

SOMOS FILHOS DA PETRA OU DA PRETA?
José Ribamar Bessa Freire
13/09/2015 – Diário do Amazonas

Desocupado (a) leitor (a), peço que examines os fatos com isenção, sem preconceitos e depois me diz com toda a sinceridade quem é a civilizada: a Petra ou a Preta? Qual das duas podia ser tua mãe? Quem é que gostarias que te educasse e com quais valores e princípios éticos?

Petra 1

A desgraçada ainda usa o sobrenome do personagem do “Casablanca”, que era herói da resistência ao nazismo

A Petra vive em Budapeste às margens do rio Danúbio, centro financeiro, cultural e histórico da Europa. Estudou na Universidade de Pécs, uma das mais antigas do mundo, fundada em 1367 pelo rei Luís I da Hungria, um país com vários ganhadores do Prêmio Nobel. Frequenta teatros, museus, cinemas, bibliotecas, centros culturais e restaurantes sofisticados. Fala inglês, russo e alemão, além do húngaro que, segundo Chico Buarque, é “a única língua do mundo que o diabo respeita”. Repórter da rede N1TV, filma, fotografa, usa computador, carro, metrô, avião e perfume francês.

A Preta nasceu no coração da floresta nos arredores de Óbidos, no Pará, na garganta do rio Amazonas. Não sabe ler, nunca frequentou escola. A “biblioteca” mais próxima, distante vários dias de remo, conta apenas vinte livros numa prateleira dentro de uma “choupana de barro coberta de folhas de palmeiras nas margens do Tocantins, que pertence ao escrivão do lugar, um jovem mameluco chamado Soares” (p.58). Seus irmãos foram assassinados por um tal “major Gama, comandante militar de Óbidos” (p.103) Embora não fale uma palavra de francês, ela se exilou em Paris.

A budapestina

O que foi que Petra e Preta fizeram para atrair a atenção? A jornalista Petra Laszlo se celebrizou na terça-feira quando chutou uma menina e deu rasteira num refugiado com uma criança no colo, derrubando-os, em cena que escandalizou o planeta. Fez isso diante da dor do mundo que contempla impotente o sufoco de milhões de refugiados, as mortes de um menino de três anos numa praia turca e de 71 migrantes, entre eles crianças, asfixiados num caminhão em estrada da Áustria. Petra 3 rasteira

Essa tragédia humanitária de proporções gigantescas que afeta o Oriente Médio, o norte da África e o mundo inteiro, não comoveu o coração pétreo da jornalista, que abandonou seu papel de testemunha para colaborar com a polícia, criando um fato novo. Derrubou um homem que tentava desesperadamente furar a barreira policial na fronteira da Hungria com a Sérvia com o filho no colo. Chutou-os para filmá-los nocauteados, mordendo o pó. A agressão, registrada por um colega, foi amplamente divulgada pela mídia e pelas redes sociais.

Ninguém sabe detalhes de sua vida, só que ela trabalhava na TV da Rede do Jobbik, o partido de extrema-direita atualmente no poder, que soltou a polícia, como cães raivosos, contra os refugiados. Mas diante do escândalo, nem seus colegas cavernosos lhe deram apoio. Embora Petra seja o retrato da direita europeia e tenha feito com os pés o que se faz diariamente com o discurso, com o olhar, com posturas, foi demitida e pode cumprir até sete anos de prisão, o que ainda é pouco.

Nada mais foi dito sobre Petra na acanhada cobertura jornalística. Neste sábado (12) ela apareceu publicamente se apresentando como “uma mãe solteira desempregada com filhos pequenos”, lamentando haver tomado “uma decisão errada” num momento de susto. Será?

Ficamos sem saber como Petra Laszlo perdeu sua humanidade. Para que servem livros, filmes, música, exposições, cursos, viagens, domínio de línguas estrangeiras, se o resultado é esse lixo moral? Como é que alguém sai de uma universidade com o coração ainda mais endurecido, incapaz de um gesto de compaixão, de solidariedade, sem a compreensão dos fatos históricos e do papel da intelligentsia? Que bosta de universidade é essa? Onde é que esse traste estudou jornalismo, quem foram seus professores, que disciplinas cursou, qual o espaço curricular para discutir as questões éticas?

Até o bairro onde vive essa budapestina mal amante e mal amada pode ser informação pertinente. Ela vive em Buda, na margem direita do Danúbio ou em Peste, na margem esquerda? É mesmo mãe solteira? Tem namorado, já beijou e amou alguém, já deram uma cafungada no cangote dela? Quem teria coragem de tê-la como companheira: algum Bolsonaro de Budapeste? Como trata os filhos? Tem irmãos e sobrinhos? Qual a relação com seus pais e vizinhos, que tipo de musica aprecia, quais os filmes que viu, que livros leu, quem foram seus colegas de escola? Ela é o contrário da Preta.

A amazônida

A Preta viu seus irmãos da floresta serem assassinados pelo major Gama e não se sabe como acabou se refugiando na França, junto com sua irmã Chica. Quem conta a história delas é Henry Walter Bates, um cientista inglês que viveu onze anos na Amazônia (de 1848 a 1859) e colaborou de perto com Charles Darwin. Ele escreveu um livro, onde registrou a história de Preta e Chica, que não aparecem com esses nomes.

As duas foram recebidas em Paris por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, um naturalista francês, professor da Sorbonne e por seu filho Isidore (1805-1861), zoólogo e médico. Ficaram hospedadas no Jardim das Plantas. Quem dá notícias do exílio e dos gestos de solidariedade e humanidade delas é Bates:

“Segundo relato feito por Geoffroy St.Hilaire elas raramente se separavam, permanecendo constantemente abraçadas e com as caudas enlaçando o corpo uma da outra. Comiam juntas, e nessas ocasiões em que a amizade dos animais é posta duramente à prova, elas nunca brigavam pela posse de alguma fruta ou petisco preferido” (p.104).

218 Preta e Chica eram duas macacas da espécie cuatá (Ateles Paniscus), pretas, grandes e de pelos ásperos, com uma coloração amarelada nas partes da cara, desprendidas e generosas, que nos ensinam a repartir o pão. Sua família foi dizimada pelo major Gama, que matava vários macacos cada semana, cuja carne é apreciada na região. Elas se salvaram porque fugiram para Paris, Bates relata a cena que testemunhou com a mãe delas:

“Tratava-se de uma macaca já velha, que acompanhava seu dono, comerciante, em todas as suas viagens pelo rio. Desejando dar a mim um exemplo da inteligência e do sentimento do animal, o homem pôs-se a xingá-la violentamente, usando de todos os vitupérios em que é fértil a língua portuguesa. A pobre macaca, sentada humildemente no chão, parecia arrasada por essa manifestação de raiva. Começou a choramingar e por fim rompeu num choro convulsivo, que lhe sacudia o corpo todo (….) Finalmente o seu dono mudou de tom:

– É tudo mentira, minha velha, você é um anjo, uma flor, uma criatura muito boa e carinhosa.

A macaca parou de chorar imediatamente e logo depois veio sentar-se perto dele” (p.104).

Na Assembleia Geral da ONU que começa na terça (15) em Nova York, as nações do mundo tem que dizer se somos filhos da Preta – essa selvagem prenhe de humanidade, ou da Petra – essa escória fedorenta da civilização. A presidente Dilma Rousseff já se pronunciou em artigo na Folha de SP – Os refugiados e a esperança – na qual condena a xenofobia e elogia o comandante da corveta Barroso que salvou mais de 200 refugiados vindos da Líbia, cujo barco estava à deriva. É bom advertir que o assunto é muito sério para ser usado mesquinhamente como picuinha oposicionista.
No caminho de volta em busca da ancestralidade e da humanidade perdida, é da Preta que eu gostaria de ser filho, da Preta Sapiens, que chora, ri, compartiha, sente, ama e abraça..
P.S. – As citações são do livro de Henry Walter Bates: Um naturalista no Rio Amazonas. São Paulo/Belo Horizonte, USP/Itatiaia. 1979, 300 pp.

A Petra e a galeria de seus colegas
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Petra 2marine trump

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DOIS ONZE DE SETEMBRO

Os gringos e a imprensa mundial não deixam ninguém se esquecer do 11 de setembro de 2001. O atentado ao World Trade Center em New York provocou não apenas quase três mil mortes diretas, como gerou uma série de guerras, foi pretexto para a promulgação do “Patriotic Act” – lei que dá superpoderes de corte fascista à polícia e ao Ministério de Segurança dos EUA –, levou ao investimento de bilhões de dólares na espionagem eletrônica pelo mundo inteiro.

Bom, os Estados Unidos experimentaram na pele aquilo que já haviam contribuído ativamente para fazer o povo chileno sofrer, em um 11 de setembro, em 1973, quando o general Pinochet derrubou o governo de Salvador Allende. Golpe que deixou mais de 35.000 vítimas diretas: 28 000 foram torturados, 2.279 deles executados e cerca de 1.248 que continuam como desaparecidos depois de presos. Para além disso, cerca de 200.000 pessoas iriam para o exílio e um número não determinado (de várias dezenas de milhares) passou por prisões clandestinas.

11 de setembro de 1973. La Moneda bombardeado no golpe do Pinochet.

11 de setembro de 1973. La Moneda bombardeado no golpe do Pinochet.

Depois de dois anos preso pela ditadura brasileira, tive que sair do Brasil. Mas queria ficar na América Latina, e se vislumbravam três opções: Argentina, Chile e Peru. A Argentina, com Perón, já deslizava para o golpe. No Chile, com Salvador Allende, comentava-se que o exército era “democrático” e que o país não sofrera a praga dos golpes que assolavam o resto da América Latina. No Peru, diziam que o exército já havia feito uma “revolução de esquerda”, com reforma agrária, desapropriação de grandes fazendas, desapropriação das refinarias, nacionalizações, etc.

Jamais acreditei em forças armadas que se voltassem contra a estrutura de classes de um estado. Por isso mesmo, essa história de que o exército chileno jamais daria um golpe nunca me convenceu. Então, descartamos o Chile.

No Peru, a situação era diferente. Queríamos entender o que acontecia por lá, mas isso já será objeto de outro post. Só adianto que a experiência peruana me vacinou totalmente contra a doença de acreditar que exército institucionalizado pode ser revolucionário e popular, uma febre que de vez em quando acomete a esquerda.

O fato era que estávamos morando em Lima naquele fatídico 11 de setembro.

Internet não havia, é claro. Desde a véspera, as notícias da iminência do golpe cresciam. A situação vinha se agravando a diário, aliás, e a demissão do General Prats (que depois foi assassinado pelos sicários do Pinochet), deixava iminente que pelo menos haveria tentativa de golpe.
Acreditava-se, entretanto, que o governo de Allende teria condições de resistir. Carlos Altamirando, do PC Chileno, disse que o Chile se transformaria em outro Vietnã. No fundo, apesar de não acreditar nisso, tínhamos esperança de que a experiência da Unidad Popular sobrevivesse.

Aconteceu o que aconteceu.

11 de setembro de 2001. As torres atacadas.

11 de setembro de 2001, As torres atacadas.

No segundo 11 de setembro, o que atacou a Gringolândia, eu estava em Montreal, participando – a convite dos canadenses – de um encontro sobre diversidade cultural. Era parte do movimento que acabou resultando na Convenção sobre a Diversidade Cultural, aprovada e já ratificada pela UNESCO.

No intervalo do primeiro dia do encontro (11), estourou a notícia, com as imagens do primeiro avião batendo na torre do WTC. Foi um desconcerto total. Na hora do almoço, já com as filmagens do segundo avião e a queda dos edifícios, a consternação era geral.

Bem ou mal o encontro continuou até o final, no dia seguinte.

O noticiário era um horror. Primeiro, o aviso que de todos os voos de e para os EUA estavam suspensos. Eu tinha passagem de volta já na quarta, via New York, onde pretendia passar um par de dias. Tudo suspenso.

Os canadenses, corretíssimos, avisaram que garantiam o hotel enquanto durasse a proibição de pousos, e colocaram seu pessoal para tentar resolver cada caso. Para os europeus não havia problema, pois os voos continuavam operando. Mas, para os sul-americanos, não. Todos os voos faziam escala, na época, em alguma cidade dos EUA. Se o problema continuasse, cheguei a cogitar em comprar uma passagem para a Europa e de lá voltar para o Brasil.

Montreal é uma cidade ótima, com uma vida cultural intensa. Só que ninguém tinha ânimo para ir a cinema, teatro ou concerto. Todos os ilhados passavam o dia no quarto, vendo o horripilante noticiário.

Os comentaristas da televisão dos EUA eram um espetáculo a parte, e extremamente deprimente. As exortações para a guerra eram continuadas e histéricas. Pérolas como um deles dizendo que isso de direitos humanos só valiam para os gringos, e que aqueles terroristas nojentos tinham que ser exterminados, saíam a três por dois.

Um dos convidados ao encontro era o Daniel Divinski, da Ediciones de la Flor, a editora do Quino, entre outros. Daniel é um sujeito formidável, bem-humorado, com uma história impecável de combate à ditadura argentina e pela liberdade de expressão. Um desses dias, no café da manhã, decidimos sair de alguma maneira para espairecer.

Já era final do outono, o que, no Canadá, significa frio pra caramba, embora não nevasse. O hotel estava perto do cais do rio São Lourenço, a porta de entrada do Canadá pelo Atlântico. É um enorme estuário, com muitas ilhas.

E o serviço de bateau mouche ainda estava funcionando.

Sem disposição para coisas mais profundas, lá fomos nós. Dois senhores, de sobretudo e cachecol, sozinhos no deque do barco, tomando uma taça de vinho pelos meandros do rio, comentando o evento e, é claro que sem nenhuma necessidade de bola de cristal, prevendo a chuva de bombas que cairia no Iraque e no Afeganistão.

Na sexta-feira consegui voltar para o Brasil, via Houston. Deprê que nem só, com esse segundo 11 de abril, tal como no primeiro.

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MIÇANGAS, O TROCO QUE OS ÍNDIOS DÃO

O texto do Bessa, logo abaixo, sobre a exposição no Museu do Índio do Rio de Janeiro que apresenta trabalhos de artistas indígenas com essas continhas perfuradas, tão menosprezadas, lança um olhar significativo sobre as trocas feitas há séculos entre os colonizadores europeus e as populações indígenas, não apenas nas Américas, como antes na África e logo em seguida na Oceania.

As miçangas são também uma metáfora das trocas entre europeus e os povos das civilizações que eram para eles desconhecidas. A troca de objetos se reveste de significados muito complexos e tem consequências que podem ser trágicas. A súbita introdução de objetos de aço entre as populações americanas, por exemplo, machados e facas, teve consequências importantíssimas. Ao mesmo tempo que aumentou exponencialmente a produtividade do trabalho – obviamente é mais fácil abater uma árvore com um machado de aço que com um de pedra – trouxe disrupções econômicas e sociais com consequências geralmente trágicas. É um assunto amplamente estudado não apenas pelos antropólogos, como pelos historiadores em geral.

A exposição sobre miçangas lança uma luz sobre outro aspecto dessas trocas: a ressifignicação dos objetos trocados. Bessa cita a observação de Colombo, que classifica os índios como idiotas por trocarem as miçangas por ouro, para mostrar como essas pecinhas tão “sem valor” para os europeus tinham outro significado para os indígenas.

A tragédia, como quase sempre, é que o “valor econômico” recobre e esmaga as trocas simbólicas entre as culturas, com as consequências trágicas que conhecemos. Nem por isso, entretanto, deixam de ser retrabalhadas, ressignificadas e revalorizadas nessa troca que, ainda desigual, não pode ser vista como unilateral.

Tomara que eu consiga ir ao Rio enquanto a exposição estiver montada.

Babá com a palavra.

taqui

“Aí está a miçanga que nós chamamos de samura. Está certo que é o branco que fabrica, mas quando chega na mão do índio ela vai se transformando. Então, na medida que a mulher vai trabalhando, enfiando a miçanga, ela já está enfiando o conhecimento dela dentro da miçanga” (João Tiriyó).

sala expo 2 Parece até que foi encomendado. O vento forte e a chuva de granizo que caiu nesta quarta-feira (19), no Rio de Janeiro, perfumou o Museu do Índio com cheiro de terra molhada durante a abertura da mega-exposição “No caminho da miçanga – um mundo que se faz de contas”. O Museu estava até o tucupi de gente. Tinha gente saindo pelo Cunha. Cerca de 500 pessoas se acotovelavam para ver os conhecimentos enfiados pelas mulheres indígenas dentro de 700 peças de rara beleza confeccionadas com miçangas coloridas, além de fotos, filmes, hipertextos e instalações multimídia.

Índios, antropólogos, museólogos, historiadores, linguistas, professores e estudantes percorreram, de olhos esbugalhados, os sete ambientes do espaço expositivo – Viagem, Mito, Encontro, Troca, Brilho, Ritual, Encanto e Mergulho. A exposição, que tem como curadora a antropóloga Els Lagrou, conta com a parceria da UNESCO e da UFRJ. Foram cinco anos de trabalheira de artistas indígenas de 24 etnias, de pesquisadores do Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (PROGDOC) e da equipe do Museu do Índio. Mas a Exposição, enfim, foi inaugurada.

Mulheres indígenas

Na abertura, o diretor do Museu, José Carlos Levinho homenageou “as maiores detentoras do conhecimento sobre o manuseio das miçangas: as mulheres indígenas, exímias artesãs dessa arte complexa e fascinante, que com as mãos, as linhas, as contas e as cores tecem verdadeiras obras primas, registros fundamentais da história e cosmologia de seus povos”. Miçanga Elsie, Yone, Simone, Indias Citou nominalmente cada uma das artistas Guarani, Ye’kuana, Marubo, Karajá, Krahô, Kayapó, Kaxinawá e Maxakali, que no final de semana mostram ao público técnicas usadas na confecção de objetos com miçanga.

A exposição, que contou na abertura com a presença do atual e do ex-presidente da Funai, João Pedro e Márcio Meira, é intercontinental. Ao lado das obras de arte elaboradas no Brasil estão outras confeccionadas por 18 povos da África, da Ásia e de diversos países da América, que permitem contar a trajetória histórica da miçanga e sua viagem pelo mundo.

Na América, ela chegou no Caribe, em 1492, trazida pela primeira vez por Cristovão Colombo e depois como carga obrigatória dos barcos que aqui aportavam. Os povos ameríndios, que já confeccionavam colares, pulseiras, cintos, peitorais, tangas, braçadeiras, braceletes, tipoias e cocares com sementes, dentes de animais, conchas, coquinhos, ossos, casco de tartaruga, ficaram tão encantados com as miçangas, que davam qualquer coisa por elas. Cristovão Colombo registra o fato em seu diário e chama os índios de otários e bestas, porque davam ouro em troca de vidro.

– Besta e otário era o Colombo, que não compreendeu que os valores são convencionais, que o ouro em si não é mais precioso do que o vidro em si, o valor do ouro no sistema de troca mercantilista europeu não pode ser universalizado – escreve Tzvetan Todorov, numa versão livre de trecho do seu livro “La Conquête de L´Amérique, la question de l’autre”. Comedida, mas igualmente esclarecedora, diz Els Lagrou: “O que para Colombo não passava de vidro, eram pérolas para os indíos. Apesar de fazerem suas própria contas, as de vidro eram novidades, preciosidades exóticas”.

Os Kaxinawá contam que as pessoas viajavam pela floresta em busca da árvore de miçanga, uma árvore grande parecida com a samaumeira, cheia de contas coloridas: vermelhas, azuis, amarelas e brancas. A exposição mostra que a miçanga, desde sua origem, está associada à viagem. “Fácil de carregar e sedutora pelo brilho, dureza e colorido, a miçanga se transforma rapidamente em matéria prima cobiçada para a arte de produzir enfeites a amarrar o corpo e enfeitar os artefatos rituais entre muitos povos do mundo, ela aponta para a conexão com mundos distantes, porém interconectados e traz para o interior forças que vêm de fora”.

Miçanga e indias(1)

Pacificando o branco

O colonizador que extraía o cacau da América e trazia o chocolate, fez isso com todas as matérias primas. Mas com a miçanga ocorreu o contrário. Quem visita a exposição é chamado a refletir sobre a inversão estética da relação entre o colonizador – que aqui é o fornecedor da matéria prima e o colonizado – que passa a ser o encarregado de transformá-la em arte, em artefato, de agregar valor ao produto como dizem os economistas.

O deslubramento diante da beleza das peças, com uma iluminação que as valoriza e proporciona conforto visual ao visitante, é de tirar o fôlego, mas o efeito quase pirotécnico dos recursos expográficos, longe de ofuscar o pensamento, contribui para a reflexão. O visitante, além de encher os olhos com a beleza, inunda a cabeça com novas ideias, se faz perguntas e sai com uma visão mais precisa sobre as culturas que foram capazes de ver o Outro “não como um empecilho para a construção de pessoas ou grupos”, mas como elemento constitutivo do ser. A miçanga mostra que o Outro precisa ser incorporado e pacificado e não aniquilado e destruído.

É o que Els Lagrou denominou de “estética indígena de pacificação do branco”. O “purista” vê na miçanga um sinal de poluição estética, resultante da substituição da matéria-prima extraída do ambiente natural por materiais industrializados. A exposição nos mostra, pelo contrário, que “a própria concepção estética ameríndia situa no exterior a fonte de inspiração para o processo criativo”.

O texto de abertura nos chama a atenção para o papel central das miçangas nos mitos e nos ritos de diferentes grupos ameríndios, a miçanga funciona como se fosse uma língua, sala expo 3 com um dicionário de contas, uma espécie de língua de vidro que registra e faz circular conhecimentos, “tece caminhos pelo mundo e conta histórias de fascínio mútuo entre povos distintos, falando do comércio e da exploração, do encontro e desencontro de perspectivas entre viajantes e nativos”.

O que vem de fora

No “Mergulho” da última sala, as considerações finais:

– Você certamente se perguntou porque tantos povos diferentes são fascinados por essas continhas de vidro coloridas desde a Antiguidade. Viu que os índios fazem com elas seus colares e enfeites não por as acharem mais interessantes do que as sementes naturais. Não é uma perda, mas um ganho. O que vem de fora, no pensamento desses povos, tem um valor diferenciado. É perigoso e atrai ao mesmo tempo. Tudo o que vem de fora inspira e faz construir novas relações, novos padrões de beleza e abre novas possibilidades. O Museu do Índio convida você a mergulhar nessas relações diferentes”.

O convite deve ser aceito, especialmente porque nesse mundo fedorento de Cunha, Collor, Renan, petrolão e cerverós, a exposição do Museu do Índio é bálsamo para a alma, colírio para os olhos e massagem para a inteligência. O Museu está todo miçangado, ate suas portas e janelas Se você é leitor deste Diário do Amazonas, pode escolher entre tomar ou não conhecimento da exposição, opção que eu não tive. Sou assinante de dois jornais, um do Rio e outro de São Paulo e não encontrei uma notinha sobre o acontecimento, sequer uma linha, uma mísera vírgula. Só releases promocionais, alguns deles repetidos por ambos jornais, de eventos com gente que eu nem conheço, que deveriam aparecer como propaganda comercial e não como notícia, o que é um engano.

Nas páginas destinadas à cultura dos dois jornais, li matérias sobre o anúncio do Google no Brasil que abre sede do You Tube no Rio de Janeiro, sobre o campeonato de gastronomia, sobre o Dee Bufato que toca com Sean Diss na Arte Inn, sobre os coletivos Somm e Gop Tun que comandam o Countdown no Mira, sobre a música Nhenhenhen e os dez anos de carreira de Maisa na televisão e sobre o novo livro de receitas da Ana Maria Braga. Todos temas de transcendental importância, é claro. Nada sobre as miçangas. Depois, absolutamente desinformados, os jornais acabam escrevendo besteira sobre a mandioca dos índios e da Dilma.

P.S. – Textos consultados: 1) GALLOIS, Dominique Tilkin (org): Patrimônio Cultural Imaterial e Povos Indígenas. São Paulo, Iepé. 2006 (depoimento de João Tiriyó – pg. 22); 2) LAGROU, Els. No Caminho da Miçanga: arte e alteridade entre os ameríndios. Enfoques – Revista dos Alunos do PPGSA-UFRJ, v.12(1), junho 2013. [on-line]. pp. 18 – 49; 3) TODOROV, Tzvetan: La Conquête de l’Amérique : La Question de l’autre.Paris. Le Seuil. 1982. 4) MILLER, Joana. As coisas. Os enfeites corporais e a noção de pessoa entre os Ma­maindê (Nambiquara). Tese de Doutorado em Antropologia Social. Museu Na­cional/UFRJ, Rio de Janeiro, 2007; 5) VAN VELTHEM, Lucia. O Belo é a Fera. A estética da produção e da predação entre os Wayana. Lisboa: Museu Nacional de Etnologia, 2003.
P.S. Fotos, quase todas, eu acho, do Mário Vilela.

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MASP ANIMADO E FREQUENTADO – MAS PRECISA MELHORAR A INFRA DE ATENDIMENTO

Depois de caminhar hoje de manhã fui ao MASP para ver uma parte da exposição do acervo. A exposição das pinturas francesas da coleção – ARTE DA FRANÇA – De Delacroix a Cèzanne estava muito bonita e vem montada. Alguns de maus quadros preferidos do acervo estavam lá:

O Escolar – Van Gogh – Algum dia irei à Holanda para ver o Museu van Gogh, definitivamente um de meus grandes favoritos.

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A Canoa sobre o Epte – Claude Monet

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Gente de todas as idades na sala:

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Só uma coisa deixou a desejar nessa visita. A bilheteria só tinha uma pessoa atendendo, e não dava conta de resolver os problemas de grupo de escolares (umas trinta pessoas). Muitos turistas na fila – na minha frente, três americanos, atrás uma japonesa que me perguntou se ali era o MASP mesmo – e começavam a reclamar.

No mais, um bom descanso mental.

 

 

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A INCOMPETÊNCIA DO PT COBRA SEU PREÇO

A crise política se alimenta da crise econômica, e vice-versa. Isso é inevitável.

O que é evitável – em tese, pelo menos – é a incompetência. E, nessa área, tanto o governo da Presidenta Dilma quanto a direção do PT vêm se esmerando em demonstrar uma inesgotável capacidade de errar e persistir no erro.

Longe de mim querer inventariar tudo e fazer diagnósticos profundos sobre o conjunto dos erros políticos do PT. Não é esse meu objetivo. Só quero destacar alguns pontos recentes, exemplos muito mais táticos que estratégicos.

O STF concedeu nesta quinta-feira liminar ao pedido da Senadora Rose de Freitas, do PMDB. Ainda que não invalide as votações já feitas pela Câmara de “análise” das contas de ex-presidentes da República, para abrir caminho para uma possível reprovação das contas de 2014, determinou que as próximas sejam examinadas em sessões conjuntas, convocadas pelo Presidente do Congresso. Tudo sob a batuta do “Coisa-Ruim”, como um colunista d’O Globo apelida o Presidente da Câmara, evangélico de carteirinha e devoto prático do demo, o Sr. Eduardo Cunha.

A Senadora alegou que esse tipo de votação deve acontecer em sessão conjunta do Congresso Nacional, e não separadamente pelas casas. E levou o caso ao STF.

Ora, qual foi o comportamento da bancada do PT na votação?

Votou. Não percebeu a possibilidade de abortar a manobra cunhesca usando o regimento e coonestou a manobra. Por incompetência.

Tendo em vista o pedido da Senadora, e o despacho do Ministro Luís Roberto Barroso, qual deveria ter sido a atitude da bancada?

Se conhecessem a fundo o regimento das casas e o regimento conjunto do Congresso, deveriam ter denunciado a votação e se retirado do plenário. Criariam de imediato um fato de grande repercussão política, desnudando as manobras (uma das, entre tantas) do Coisa-Ruim.

Mas não, a incompetência prevaleceu e foi necessário que uma senadora do PMDB, articulada pelo Renan Soares, desse uma lição de competência parlamentar para essa bancada atônita, incompetente e sem liderança que o PT tem na Câmara dos Deputados.

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Cosme Alves Neto – Homenagem mais que merecida

Na última vez que estive com Cosmito, viemos juntos da Funarte até o MAM, conversando sobre o trabalho que ela fazia de levantamento do melodrama no cinema latinoamericano. Lá no MAM, Cosmito me ofereceu um de seus sempre presentes charutos cubanos. Cortamos as pontas e, para minha surpresa, ele acendeu o seu com um isqueiro. “Cosme, não é errado acender charuto com isqueiro?” – “Só se for de fluido, com gás não deixa cheiro, que é o que atrapalha a degustação”.

Não encontrei mais com ele depois desse puro.

Mas nossas memórias vinham de muito mais longe. Primeiro, da casa de seu pai, Cosme Alves Filho. Amigo do meu pai, tinha belas varandas com cadeiras de palhinha. Pensador da Amazônia e também prático, Cosme Alves Filho escrevia livros e colocava em prática seus experimentos. Sua plantação de seringueiras lá no Aleixo foi uma das primeiras a conseguir controlar as pragas que haviam destruído a Fordlandia, no Pará. Sua fábrica de beneficiamento introduziu novos métodos de processamento da matéria prima, e tantas outras coisas.

Em 1964, quando da primeira prisão do Cosmito, meu pai foi, a pedido do Dr. Cosme, ao Rio de Janeiro, como um de seus advogados. A segunda prisão é que foi a mais dura.

Mas a minha convivência se dava principalmente nas férias cariocas. Trocava praia por passar o dia no MAM. Como o projecionista passava o dia inteiro lá, Cosmito programava até três filmes para que eu visse. Foi minha formação cinematográfica. Privilegiadíssima, como podem perceber. Todos aqueles tesouros da Cinemateca iam sendo devorados. A lista seria cansativa demais…

Depois, no GEC, em Manaus – clone do que ele havia fundado no Rio, e refundado em uma de suas visitas a Manaus – continuamos recebendo os filmes que vinham do MAM. Depois, os que vinham da Cinemateca Brasileira, com a ponte que ele fez com Paulo Emílio – consolidada depois com Márcio Souza, Djalma e Guálter Batista, quando vieram estudar em São Paulo depois da invasão da Universidade de Brasília. A apreensão da cópia do L’âge d’Or, do Buñuel, pela Polícia Federal, depois de uma emocionante exibição – com um programa preparado e impresso pelo Márcio em uma impressora de pedal que tinha lá na casa dele.

Agora, o documentário do Aurélio Michilles, que entrou em cartaz, inclusive em Manaus, onde não há mais cineclubes nem cinemas de arte.

Um filme que testemunha um trabalho cultural de base, fundamental para preservação da nossa história. Não apenas da história do cinema brasileiro, mas da história. Pois, como dizia o Cosme, mesmo os filmes piores são testemunhas de um momento da vida na sociedade.

Mas é melhor deixar o Bessa falar sobre isso.

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Cosme Alves Netos, sempre de braços abertos.

Cosme Alves Netos, sempre de braços abertos.

(De São Paulo) Quem foi o Cosme? No Amazonas, os jovens não sabem, mas agora podem saber. O cineasta Aurélio Michiles – o Damião – dá a resposta no documentário “Tudo por amor ao cinema”, que vi em São Paulo para onde o trabalho me levou. Confesso que fui à sala do shopping da Frei Caneca só para ver o Cosme. Vi. Mas acabei vendo muito mais. Vi o cinema e sua história. Vi a resistência à ditadura e a luta da memória contra o esquecimento. Vi Manaus, o Amazonas, o Brasil. Vi poesia, humor, lirismo. Vi dois amazonenses amantes do cinema: o Cosme e o Damião que narra, bordando de amor cada cena do filme.
Ele, Cosme Alves Netto (1937-1996) está lá na pintura feita por seu “gêmeo”. De corpo e alma. De frente e de perfil. Inteiro. Charmoso. Sua passagem pelo planeta é contada desde que nasceu em Manaus até a morte no Rio antes de completar 60 anos, passando por sua atuação em cineclubes, no Grupo de Estudos Cinematográficos da União Metropolitana de Estudantes, nos cursos de Comunicação da PUC e de Filosofia da FNFi, na programação alternativa do Cine Paissandu, na direção da Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Suas andanças pelo mundo como “embaixador do cinema brasileiro”, a militância na JUC e na Ação Popular, as prisões que sofreu, as mulheres de sua vida, nada escapou ao olhar atento e amoroso do Damião.

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