CASTRO ALVES CHORA JANAÍNAS E CUNHAS

Castro_Alves03 Estava eu, sonolento após levar a surra mental do sodalício reunido quando, em um ectoplasma radioso, põe-se diante de mim o Poeta Libertário, chorando.

Diz-me, voz embargada que, do etéreo vira, gente que dizia representar sua alma mater, Uma harpia e um careca de olhar esgarço vomitarem tudo que negava a alma da velha casa.

Pediu-me, tremendo, que abandonasse por um instante meu espírito materialista,

E transcrevesse, ainda impolidas, o que do peito lhe brotava, lembrando sua saga antiescravista.

E tascou o que eu, mão trêmula, copiei:

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado numa Janaína?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

 

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na Cunha penedia

 

Cem mil pastores, dizem

Evangélicos que são

Em contas nos altos Alpes mamam

E do teu filho Jesus.com são

 

— Infinito: galé! …

Por abutre — me deste o sol seco do Planalto,

E o Congresso do Brasil — foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

Da mulher louca e caprichosa,

Insana e cortesã.

Do rosto o esgar mostra;

Dos cabelos medusas assanha,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

 

Idiotas após ela — loucos amantes

Seguem cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

 

Nem veem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu. 

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

 

Jesus.com! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos — alimária do universo,

Eu — pasto universal…

 

Hoje em meu sangue a hipocrisia se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

 

Basta, Senhor!  De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

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CENTRO CULTURAL SÃO PAULO – ESPAÇO ABERTO

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O Centro Cultural São Paulo,também conhecido como Centro Cultural Vergueiro, é um dos espaços públicos mais interessantes da cidade. E por muitas e diversificadas razões.

Recentemente fui até lá para ver a exposição ANTONIO BENETAZZO, PERMANÊNCIAS DO SENSÍVEL e, como sempre, fiquei admirado e de certa forma comovido com o que vi.

Benetazzo, infelizmente já saiu de cartaz.

Benetazzo, infelizmente já saiu de cartaz.

Não apenas dezenas de jovens (ou não tão jovens assim) aproveitando o wi-fi grátis da Prefeitura. A Biblioteca Sérgio Milliet lotada. É a segunda maior biblioteca pública da cidade, menor apenas que a Mário de Andrade. E é a única aberta sábados, domingos e feriados (como, aliás, deveriam ser TODAS as bibliotecas públicas), com acervo razoavelmente atualizado, tanto de livros como de revistas.

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Os outros equipamentos permanentes do CCSP também são muito bem frequentados. A Biblioteca Alfredo Volpi, cujo acervo é composto por catálogos de exposições de artes indexados pelo nome do artista, livros sobre artes plásticas, arquitetura, fotografia, moda, recreação e artes performáticas, além de periódicos e CDs-Rom. Destaque para a coleção da revista Cinelândia, publicada entre as décadas de 1950 e 1960, e para os mais de onze mil catálogos de exposições, dos quais 5.247 já estão indexados pelo nome do artista, em um banco de dados que, em breve, será disponibilizado pela internet. Pode ser frequentada de terça a domingo. Considero a coleção de catálogos como um dos aspectos mais importantes da Alfredo Volpi. As exposições passam, a documentação fica, e essa memória é inestimável.

E ainda há também uma biblioteca Braille, a Gibiteca Henfil, uma sala de leitura de títulos infanto-juvenis, um laboratório audiovisual e uma área para Culturas Surdas. As duas categorias de deficientes físicos mais ativos e com necessidades bem específicas de acesso estão, assim, atendidas. Além, é claro, do espaço ser acessível para cadeirantes.

Entre as coleções permanentes do CCSP destaco, em particular, a Discoteca Oneyda Alvarenga e a Coleção de Arte da Cidade. Oneyda Alvarenga foi colaboradora de Mário de Andrade, sobretudo na área das gravações de música popular e folclórica, e iniciou a organização da discoteca, ainda na Biblioteca Mário de Andrade. Uma boa parte do acervo já está digitalizado e disponível no portal da discoteca, facilitando a consulta. O acesso direto ao material original precisa ser agendado e é feito com supervisão, até porque o material é sensível. Além das gravações, a Oneyda Alvarenga disponibiliza partituras. Parte importante é o acervo da Missão de Pesquisas Folclóricas, projeto de levantamento etno-musical desenvolvido por Mário de Andrade ainda na década de 1930. O SESC-SP ditou uma caixa com seus CDs com uma seleção do material gravado. O conjunto está totalmente catalogado e disponível para pesquisas na discoteca.

No entanto, o visitante fica mesmo impressionado é com a diversidade de atividades – organizadas e livres – que acontecem simultaneamente no CCSP. Além dos frequentadores das bibliotecas e acervos permanentes, e dos que usam o wi-fi livre, a quantidade de grupos reunidos ali para estudar, conversar, ensaiar teatro e dança é impressionante. Nota-se que são grupos de jovens que chegam porque o CCSP é simplesmente um espaço aberto e livre para essas atividades. Então, tem gente ensaiando street dance, esquetes de teatro ou partes de peças, fotografando ou simplesmente passando o tempo. IMG_1446 IMG_1447 IMG_1448 IMG_1451 No dia em que fui, além da exposição do Benetazzo (que se encerrou domingo, dia 29 de maio), havia uma grande exposição do British Council, com várias atividades, exposição de fotografias, de cartazes. Tinha até uma horta orgânica no jardim superior (uma parte da área está fechada para reparação e conservação). Programação de cinema, de teatro – inclusive o espaço para teatro experimental, que há pouco foi reinaugurado com melhorias técnicas.

Uma das atividades importantes que correm junto a todas as demais é o serviço de documentação do Centro. Não apenas recolhe o material do que acontece ali, como em várias outras atividades da Prefeitura. Uma das coleções importantes é da Arte da Cidade, que administra obras adquiridas e doadas à Prefeitura. Iniciativa de Sérgio Milliet que, em 1945 instituiu a Seção de Arte na Biblioteca Municipal (hoje Mário de Andrade), da qual evoluiu a Pinacoteca Municipal e a atual coleção do CCSP, que administra cerca de 2.900 obras de arte em vários suportes, com peças do Século XIX e contemporâneas. Parte da coleção está no CCSP e existem obras em outros prédios municipais de acesso público. Além disso, possui seis coleções de Arte Postal, com dez mil peças no total, e que é uma das maiores coleções do gênero na América Latina.

O serviço de documentação apoia também as atividades da Virada Cultural, cadastrando grupos interessados em participar. Soube que, nas últimas edições, mais de cem saraus literários se inscreveram para participar de atividades.

Fuxicando no site do CCSP descobri que existe uma Associação de Amigos. Mas não há muitas informações. Pretendo visitar novamente o CCSP e perguntar a seu atual diretor, meu amigo Pena Schmidt, sobre o assunto.

Enfim, um mundo diversificado, uma experiência de convivência democrática e aberta bem digna de S. Paulo.

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ANTONIO BENETAZZO, PERMANÊNCIAS DO SENSÍVEL

Autoretrato quando já na clandestinidade. A identidade preservada.

Autoretrato quando já na clandestinidade. A identidade preservada.

No dia 26, feriado, fui até o Centro Cultural São Paulo para ver a exposição das obras de Antonio Benetazzo, que ali fariam até o domingo 29 de maio.
Uma exposição excepcional, e por várias razões.

Benetazzo foi assassinado em 1972, na Casa da Vovó, o sítio do Fleury usado para torturas e execuções que ultrapassavam até mesmo os limites do que acontecia nas dependências do DOPS.

Benetazzo, nascido em 1941, tinha 31 anos quando morreu. Era, ainda, um artista em formação – se é que em algum momento a formação de um artista se encerra… – envolvido na luta armada contra a ditadura.
Ainda que em formação, e com obras em quase sua totalidade executadas sobre papel, o que sobrou nas mãos de parentes e amigos mostra um pintor com um domínio sólido não apenas da técnica usada, como também com uma visão abrangente e crítica da história das artes plásticas.

A exposição foi promovida pela Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Cidadania, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, da qual o CCSP é um dos principais equipamentos. A SMDHC, através da Coordenação de Direito à Memória e à Verdade, parte para recuperar também a memória perdida pela repressão. Como lembra Reinaldo Cardenuto, curador da exposição, “à ditadura não bastava torturar, assassinar ou desaparecer com seus opositores, mas também difundir na imprensa farsas e encenações ou para transmitir recados de força contra aqueles que lhe ofereciam resistência. […] O regime militar não foi somente um sumidouro de pessoas, mas também um perverso sumidouro da memória” (Catálogo da exposição, p. 11).

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Tenho refletido um tanto sobre alguns aspectos da Comissão Nacional da Verdade, e à enorme ênfase que foi dada ao fenômeno da repressão: fomos vítimas da tortura, as prisões eram arbitrárias, os assassinatos se sucederam. É verdade que também foram levantadas as ações da ditadura contra o movimento indígena, as manifestações de luta antirracista e, é claro, as ações contra as greves de trabalhadores já nos seus estertores. Entretanto, considero pouca a ênfase se dá, no plano mais concreto, às razões pelas quais a violência se abateu sobre os militantes. O que fazíamos para que a ditadura tivesse essas sanhas.

A exposição do Benetazzo faz parte dessa resposta, muitas vezes também “oculta”. A repressão se abatia sobre organizações, inclusive quando estas já tinham pouca capacidade operacional para apresentar uma resistência “militar”. A razão pode ser resumida assim: é porque tínhamos capacidade de pensar um Brasil diferente daquele do “milagre”, e tudo que fazíamos contribuiu para que fosse sendo construída essa frágil retomada democrática, agora mais uma fez posta em perigo.

Sérgio Ferro – que foi professor de Benetazzo na FAU/USP, e que também esteve preso, chama atenção precisamente para isso.

“Não é o caso de desenvolver nesta nota a tese sugerida aqui: o silêncio que envolve a produção plástica de Benetazzo (e que atinge também muitos outros artistas plásticos resistentes em graus diversos contra a ditadura) faz parte de um movimento (inconsciente espero) de apagamento de nossa memória histórica para evitar acordar a culpabilidade pela passividade passada diante dos crimes nojentos dessa ditadura. […] O grande pecado da resistência foi, como se sabe, enfrentá-la – e tentar, se fosse possível, alterar a triste situação do povo brasileiro inaugurando uma situação de real e efetiva liberdade igualitária”. (Catálogo, Sérgio Ferro – p 34).

Não sou crítico de artes plásticas. Apenas procuro desenvolver a sensibilidade para entender essas correntezas do pensamento – e da luta (ou de sua negação) – que transparecem nas formas de expressão artística.

Alípio Freire, que também é artista plástico, sintetiza melhor que eu:

Benetazzo - Brasil68 - A criação dos monstros

Benetazzo – Brasil68 – A criação dos monstros

“Um jornalista que se impressionou positivamente com a obra de Benetazzo, referindo-se à série Brasil 68 (páginas 84 a 92 do catálogo), teceu paralelos entre estes trabalhos do nosso artista e aqueles de Francisco José de Goya y Lucientes, concluindo que estes últimos eram “bem mais bizarros”. Certamente o “bizarro”, naquele contexto, pretendeu significar “assustador”, “aterrorizante”.

O problema é que ao pensamento subjacente de Benetazzo subjazia a moral brechtiana desenvolvida fundamentalmente para o teatro e que ele estendia a todas as artes e fazeres – o chamado “distanciamento crítico”. Ou seja, aos artistas não cabe levar o público a emoções que redundem em catarses.

Resumindo: se é verdade que os monstros de Benetazzo não são tão “bizarros” quanto aqueles de Goya, isso se deve certamente a uma escolha do artista. Enfim, como falar do terror e do medo sem aterrorizar ou meter medo no espectador? Como, ao invés disso, levá-lo a uma reflexão sobre o terror? Esse é um dilema moral que se coloca para todo artista sério que se proponha a lidar com o tema. O efeito fácil (catártico e demagógico) das torturas insistentes, intermitentes e ultrarrealistas que lotam alguns filmes brasileiros sobre o mais recente período ditatorial deixam bem claro o que aqui pretendemos significar.

Nos seus monstros, Benetazzo foi grande e certeiro: finíssimas linhas em nanquim preto sobre o papel de seda branco”. (Catálogo – Alípio Freire, p. 43).

Afinal, todos os fascistas repetem o grito do Milán-Astray, o general franquista: “Viva la Muerte!” Quem está pela vida é sempre alvo.

Marcelo Godoy, no livro A casa da vovó: uma biografia do DOI-Codi revela que Benetazzo, depois de torturado, foi finalmente apedrejado por Fleury e comparsas no sítio clandestino, e depois levado ao Brás e jogado diante de um caminhão em velocidade para forjar a mentira do suicídio.

A última obra - inacabada

A última obra – inacabada

O Catálogo, com reproduções de boa parte das obras expostas, está disponível em algum lugar da Prefeitura. Poderia ter uma difusão mais ampla.

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IVAN LESSA E O NOSSO BANANÃO

Quem diria: carioca, mas nascido em S. Paulo. Um Bananão pro bairrismo...

Quem diria: carioca, mas nascido em S. Paulo. Um Bananão pro bairrismo…

Nos últimos dias andei lembrando muito do Ivan Lessa. Principalmente do modo como ele se referia ao Brasil: Bananão.

O Bananão é uma república de bananas superlativa. Tudo é mais exagerado no Bananão. Os defeitos e as virtudes – quase nunca explicitadas, mas implicitamente reconhecidas, talvez em uma imagem nostálgica do Brasil dos anos 50/60, mais especificamente do Rio de Janeiro nessa época.

O Bananão é complicado. Até porque, quando descascado e com a casca ao chão, alguém sempre corre o risco de pisar na dita e desabar. Pois, como dizia seu conterrâneo e contemporâneo, Tom Jobim, o “Brasil (Bananão) não é para principiantes” (A frase é do Tom, plagiada por um metido a sabe-tudo no título de um livro).

Pois bem, a quadra em que vivemos é uma reiteração das frases do Ivan, que as produzia por puro e simples desfastio dadaísta. Quando se constroem frases como as dele, não é preciso ter nenhuma intenção política: a frase é a política. Como agora, contraditória, irônica – mais bem, sarcástica – e às vezes até compungida, como quem lembra da piada na qual a Divindade, cobrada pelos anjos por criar uma terra sem furacões, vulcões, terremotos, maremotos e outros quetais, responde: “Vocês vão ver o povinho que vou jogar lá!”

Só para entrar na Horta da Luzia – essa expressão anárquica de memória – “erudição de abobrinhas”, como disse uma vez o Sérgio Augusto, vão lá algumas frases do Ivan:

Sig, criação do Jaguar e batizado pelo Lessa.

Sig, criação do Jaguar e batizado pelo Lessa.

Se você juntar miséria e catolicismo, só pode dar besteira.Bingo

O passado, ao menos, fica lá no canto dele, envolto em sombras, rindo seu riso velhaco, debochando de nós, dos nossos sonhos e das nossas aspirações, da nossa quebração geral de caras.
Uma profecia é uma borboleta voando adoidada pelo ar. Um fato é uma bala zunindo em nossa direção.

Toda notícia é, por definição, falsa. Ou farsa. Por aí.

As pessoas que se acham por cima da carne-seca correm o risco de ser confundidas com abóboras.

Nosso jornalismo? Piorou muito. Como quase tudo o mais. Até o xarope de groselha já não é o mesmo. Ergo: o jornalismo por aqui anda pior que xarope de groselha.

A cada quinze anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos.

Nada do que é irrazoavelmente desumano nos é estranho. Pegamos intimidade com o inusitado.

Banana: fruta empregada para demonstrar às crianças do colégio primário como colocar no membro uma camisinha.

OU
Como tudo mais, o futuro é uma incógnita. E só ao demônio pertence.

FINALMENTE

Não há motivo para nos sentirmos à vontade no mundo. Os alienígenas somos nós.

Agora, eu vou levantar, vou sair por aquela porta e não vou olhar para trás.

Finis

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O CONGRESSO É O “RETRATO DO POVO BRASILEIRO” OU A FOTOGRAFIA DA NOSSA INCOMPETÊNCIA E INCOMPREENSÃO?

Quando voltamos para casa – Maria José e eu – depois de assistirmos ao deprimente espetáculo da votação do golpe na Câmara dos Deputados, a mensagem chegou pelo celular: “Me liga, vó”.

Alunos de Artes da UnB tentam fazer uma alegre manifestação contra o golpe.

Alunos de Artes da UnB tentam fazer uma alegre manifestação contra o golpe.

 

 

 

 

 

 

 

Mas os milicos não queriam...

Mas os milicos não queriam…

Liguei eu para nossa neta Laura, que logo mais completa vinte anos e estuda artes na UnB. Laura estava em prantos com o resultado da votação. Na sexta-feira ela e colegas da UnB saíram de parangolés. Relata:

“Ontem fui com a professora Bia Medeiros e a turma da performance andando da UnB até a esplanada, fazendo performance, usando umas roupas chamadas Birutas, que parecem com os Parangolés do Oiticica…Enfim, éramos umas vinte pessoas contra o golpe. Chegamos na esplanada, que está fechada de todos os lados, e os militares nos abordaram de um jeito horrível, falaram absurdos e nos revistaram meio violentamente, mas ninguém se machucou nem nada. Depois fomos jogar vôlei no muro e eles nos deram cinco minutos para ir embora… Fiquei com medo, e estou com medo do que vai acontecer. Aqui o clima tá suuuuper tenso”.

Que responder para a neta mais velha, que passava por sua primeira batalha derrotada? Só me ocorreu aquele poema do Brecht:

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis

Como os cemitérios estão cheios de imprescindíveis e insubstituíveis, não me considero como tal. Mas continuo na luta

Mas isso não é o suficiente para entender o que aconteceu dia 17, e como chegamos até aí. E esse é o busílis.

A frase que escrevi como título era diferente: colocava a culpa especificamente no PT. Mas isso seria fácil demais para mim.

Batalhei e militei para conseguir as assinaturas necessárias para a legalização do PT. E não foi fácil. Nos estertores da ditadura, legalizar um partido não era essa mão na roda de hoje. As exigências boladas durante a “abertura” do Geisel-Golbery e continuadas durante o desfile da cavalgadura Figueiredo permitiam sim, uma alternativa ao dilema PMDB-ARENA. Mas era difícil pra caramba.

Participei dessa batalha pela legalização do PT como militante da Ala Vermelha, a organização clandestina de luta contra a ditadura à qual estava vinculado. Morava no Rio de Janeiro e participei dos núcleos e das discussões para a organização dos primeiros diretórios. Mas nunca me interessei pela militância interna no PT. Em grande medida pela minha compreensão – que era diferente da de vários camaradas – de que o PT seria apenas um partido eleitoral, que poderia abrir caminhos para a ampliação da luta popular, mas que suas limitações se esgotavam dentro da democracia burguesa.

Não que subestimasse a importância disso. Muito pelo contrário. Mas tinha uma clara compreensão das dificuldades internas da organização de um partido eleitoral e legal: a necessidade de buscar consensos e fazer concessões para estabelecer objetivos eleitoralmente viáveis; a questão dos financiamentos de campanha – e como eram evidentes as limitações impostas na dependência exclusiva das contribuições de militantes e simpatizantes – e outras do gênero.

Tenho grande admiração e respeito pelos que se dedicam a essas tarefas. Não é fácil, e é ingenuidade pensar o contrário. Mas essa forma de militância não me interessava.

O não me interessar, porém, não me exime de responsabilidades. De algum modo sou e fui parte disso tudo, apesar de jamais ter ocupado cargos na estrutura do PT e muito menos me lançado a candidato a coisa alguma. Minha praia é outra.

Minha vida, no entanto, me obriga a reconhecer que falar do PT como se não tivesse nada a ver com os erros e acertos seria hipocrisia. Por isso, mudei a frase.

Agora, na ressaca pós votação, boa parte dos comentários diz que o Congresso é o retrato do povo brasileiro. Afinal, os eleitores é que mandaram essa turma para lá.

É verdade. Mas é só meia verdade.

A composição do Congresso, comparando com as pesquisas de opinião, reflete a correlação de forças na sociedade em um dado momento. Portanto, responde às mobilizações e motivações sociais que são dinâmicas e eventualmente muito cambiantes. Quando a ARENA era “o maior partido do Ocidente”, aquilo também refletia o “povo brasileiro”, vítima da censura, da desinformação, das “mágicas” do “milagre brasileiro” e demais mumunhas da ditadura. Quando o PMDB ganhou a maioria das cadeiras do Senado em 1974, o resultado foi o autogolpe de abril, quando o Geisel inventou os biônicos e garantiu a maioria governista.

E assim por diante.

Essa constatação, no entanto, é simplista e derrotista.

Esse Congresso é o que é, dentre outras coisas, porque o PT deixou de lado a militância junto às organizações sociais, os sindicatos e outros movimentos de luta. Trocou isso pelas alianças com os velhos partidos, descurando de aumentar a bancada de modo significativo, contando apenas com os tradicionais “puxadores de votos”. Esses se elegiam; os militantes das bases, que dariam outra cor à bancada e ao parlamento, não conseguiam entrar.

As vacilações na construção de uma reforma política que impedisse a farra de partidecos interessados apenas no tempo de televisão e nos repasses do fundo partidário também contribuíram para isso. Há quantas eleições o PT descurou de pedir explicitamente o voto na legenda?

Há um ano atrás, no dia 14 de abril, publiquei aqui um post intitulado SYRIZA, PODEMOS, O PT E OS MOVIMENTOS SOCIAIS. TALVEZ LIÇÕES. http://www.zagaia.blog.br/?p=352 Nele reproduzia trechos da entrevista, dada por Stathis Kouvelakis, membro da direção do Syriza, ao filósofo francês Alain Badiou. A entrevista foi dada antes do Alexis Tsipras se render à Angela Merkel e jogar fora a luta contra a imposições da banca internacional sobre a política grega. E essa, vista a posteriori, foi uma atitude de cujos riscos Kouvelakis chama a atenção.

Diz ele, “Necesitamos inflingir derrotas a las políticas neoliberales. Para ello, la experiencia griega enseña que movimientos y movilizaciones son la condición indispensable, el punto de partida de este proceso, pero no son suficientes en sí mismos. Hay que tomar el Estado sin dejarse tomar completamente por el Estado. Ahí está todo el problema”.

Ao ganhar eleições – na Grécia como primeiro ministro e, no Brasil, com Lula para a presidência, um partido realmente tem que tomar em conta que passa a governar para toda a nação. As tarefas de governo são mais amplas e complexas que os programas partidários. No entanto, iludir-se quanto a assumir o governo e, com isso, “deixar-se tomar completamente pelo Estado” é sempre um erro fatal. Ao que parece, o foi na Grécia, tal como Kouvelakis alertava. E certamente aconteceu no Brasil.

O PT drenou quadros da estrutura partidária e dos movimentos sociais para as tarefas de governo. Em parte – na maioria dos casos – com razão. Era necessário ter pessoas com afinidades políticas e ideológicas na direção dos órgãos de governo. E isso é totalmente diferente da ideia de “aparelhamento” que a oposição tenta passar. Todo e qualquer governo seria ingênuo de deixar que postos chave da administração fossem dirigidos por adversários.

O erro não foi exatamente esse.

Mas, ao drenar esses quadros para as tarefas da administração, o PT não apenas deixou os movimentos sociais e os sindicatos sem dirigentes experientes. Foi pior. Achou que, a partir do Estado, podia substituir a ação dessas organizações, “dando-lhes” o que reivindicavam. Ao mesmo tempo, embarcou nas negociações mais desastrosas na construção da tal “base aliada” – no primeiro governo do Lula, com gente como Roberto Jefferson! – e continuando a feudalizar a administração.

Some-se a isso a submissão ao corporativismo. O Lula se gaba de sempre nomear o “primeiro da lista” dos indicados para a procuradoria e outros cargos de Estado que apresentam listas tríplices para a nomeação. Ora, se são listas tríplices, todos os indicados são representativos, e cabe ao governo escolher quem acha melhor qualificado entre eles, e não se render ao corporativismo. O resultado aparente é uma maior liberdade de ação “republicana” desses órgãos. Só que, em vez de engavetar o que interessava ao governo, como na era FHC, o ativismo da PGR se desvela na seleção do que investigar. E temos aí o Janot como chefe do estado maior do golpe, como diz o Nassif. E nem falemos na falta de critérios para as nomeações do STF e outros tribunais. Faltam-me palavras….

Outro erro fundamental foi cometido na política de comunicação. O livro do Bernardo Kucinsky, “Cartas ao Lula”, mostra quantas vezes ele foi alertado para os furos da política de comunicação do governo.

A ilusão da “mídia técnica”, consolidada pelo Franklin Martins, e a ilusão de que os blogs e as redes sociais substituiriam a imprensa tradicional foi outro erro sério. Hoje estamos aí nos queixando do PIG e sua ação conspiradora. Ora, a própria experiência histórica já havia demonstrado cabalmente a importância da existência de um jornal independente. O que teria sido do Getúlio sem Samuel Wainer e a “Última Hora”? Juscelino teria governado também sem ela? Quantos anos o golpe foi adiado por conta dos movimentos sociais e da “Última Hora”?

Já havia tratado disso, em novembro de 2015, em um post intitulado PIG, REDES SOCIAIS E A INÉRCIA PETISTA. http://www.zagaia.blog.br/?p=564 Onde está o jornal que compete com o PIG? O problema é que houve a ilusão de que, com a “mídia técnica”, a má vontade da imprensa seria neutralizada. Isso, em uma frase simples, significa ilusão de classe. Achar que o PIG estava decadente, e que a burguesia iria dispensar tranquilamente suas poderosas ferramentas midiáticas foi outro dos erros sérios.

Com isso tudo, e para concluir, a ideia de que o parlamento é o “retrato” do povo brasileiro é simplesmente uma ideia falsa e derrotista. O parlamento é o que é TAMBÉM por conta da inércia e da incompetência em entender o papel dos movimentos sociais e da imprensa.

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Não, não é anti-semitismo

LRB

Judith Butler

Judith Butler é catedrática de Literatura Comparada e Teoria da Crítica em Berkeley.

O ensaio foi publicado na London Review of Books em agosto de 2003, comentando declarações de Lawrence Summers, então presidente da Universidade de Harvard, e republicado recentemente no e-mail da revista.  As considerações da autora, que se coloca como judia e emocionalmente ligada à Israel – e extremamente crítica das posições que aquele país vem assumindo – e as cartas que comentaram a publicação na época constituem uma amostra de um alto nível de ensaísmo político, com um tom de respeito e discussão de argumentos que, infelizmente, está muito em falta por aqui nos momentos atuais.

Para mim, o ensaio da professora assume uma forma de discussão bem talmúdica (os especialistas que me contestem e esclareçam).

 As ênfases em português são minhas (FJL).

Profoundly anti-Israel views are increasingly finding support in progressive intellectual communities. Serious and thoughtful people are advocating and taking actions that are anti-semitic in their effect if not their intent.

Lawrence Summers, 17 September 2002

When the president of Harvard University declared that to criticise Israel at this time and to call on universities to divest from Israel are ‘actions that are anti-semitic in their effect, if not their intent’, he introduced a distinction between effective and intentional anti-semitism that is controversial at best. The counter-charge has been that in making his statement, Summers has struck a blow against academic freedom, in effect, if not in intent. Although he insisted that he meant nothing censorious by his remarks, and that he is in favour of Israeli policy being ‘debated freely and civilly’, his words have had a chilling effect on political discourse. Among those actions which he called ‘effectively anti-semitic’ were European boycotts of Israel, anti-globalisation rallies at which criticisms of Israel were voiced, and fund-raising efforts for organisations of ‘questionable political provenance’. Of local concern to him, however, was a divestment petition drafted by MIT and Harvard faculty members who oppose Israel’s current occupation and its treatment of Palestinians. Summers asked why Israel was being ‘singled out . . . among all nations’ for a divestment campaign, suggesting that the singling out was evidence of anti-semitic intentions. And though he claimed that aspects of Israel’s ‘foreign and defence’ policy ‘can be and should be vigorously challenged’, it was unclear how such challenges could or would take place without being construed as anti-Israel, and why these policy issues, which include occupation, ought not to be vigorously challenged through a divestment campaign. It would seem that calling for divestment is something other than a legitimately ‘vigorous challenge’, but we are not given any criteria by which to adjudicate between vigorous challenges that should be articulated, and those which carry the ‘effective’ force of anti-semitism.

Summers is right to voice concern about rising anti-semitism, and every progressive person ought to challenge anti-semitism vigorously wherever it occurs. It seems, though, that historically we have now reached a position in which Jews cannot legitimately be understood always and only as presumptive victims. Sometimes we surely are, but sometimes we surely are not. No political ethics can start from the assumption that Jews monopolise the position of victim. ‘Victim’ is a quickly transposable term: it can shift from minute to minute, from the Jew killed by suicide bombers on a bus to the Palestinian child killed by Israeli gunfire. The public sphere needs to be one in which both kinds of violence are challenged insistently and in the name of justice.

Chegamos historicamente a um momento no qual os Judeus não podem ser legitimamente compreendidos sempre e apenas como vítimas.

If we think that to criticise Israeli violence, or to call for economic pressure to be put on the Israeli state to change its policies, is to be ‘effectively anti-semitic’, we will fail to voice our opposition for fear of being named as part of an anti-semitic enterprise. No label could be worse for a Jew, who knows that, ethically and politically, the position with which it would be unbearable to identify is that of the anti-semite. The ethical framework within which most progressive Jews operate takes the form of the following question: will we be silent (and thereby collaborate with illegitimately violent power), or will we make our voices heard (and be counted among those who did what they could to stop that violence), even if speaking poses a risk? The current Jewish critique of Israel is often portrayed as insensitive to Jewish suffering, past as well as present, yet its ethic is based on the experience of suffering, in order that suffering might stop.

Summers uses the ‘anti-semitic’ charge to quell public criticism of Israel, even as he explicitly distances himself from the overt operations of censorship. He writes, for instance, that ‘the only antidote to dangerous ideas is strong alternatives vigorously advocated.’ But how does one vigorously advocate the idea that the Israeli occupation is brutal and wrong, and Palestinian self-determination a necessary good, if the voicing of those views calls down the charge of anti-semitism?

To understand Summers’s claim, we have to be able to conceive of an effective anti-semitism, one that pertains to certain speech acts. Either it follows on certain utterances, or it structures them, even if that is not the conscious intention of those making them. His view assumes that such utterances will be taken by others as anti-semitic, or received within a given context as anti-semitic. So we have to ask what context Summers has in mind when he makes his claim; in what context is it the case that any criticism of Israel will be taken to be anti-semitic?

It may be that what Summers was effectively saying is that the only way a criticism of Israel can be heard is through a certain acoustic frame, such that the criticism, whether it is of the West Bank settlements, the closing of Birzeit and Bethlehem University, the demolition of homes in Ramallah or Jenin, or the killing of numerous children and civilians, can only be interpreted as showing hatred for Jews. We are asked to conjure a listener who attributes an intention to the speaker: so-and-so has made a public statement against the Israeli occupation, and this must mean that so-and-so hates Jews or is willing to fuel those who do. The criticism is thus given a hidden meaning, one that is at odds with its explicit claim. The criticism of Israel is nothing more than a cloak for that hatred, or a cover for a call for discriminatory action against Jews. In other words, the only way to understand effective anti-semitism is to presuppose intentional anti-semitism; the effective anti-semitism of any criticism turns out to reside in the intention of the speaker as retrospectively attributed by the listener.

It may be that Summers has something else in mind; namely, that the criticism will be exploited by those who want to see not only the destruction of Israel but the degradation or devaluation of Jewish people in general. There is always that risk, but to claim that such criticism of Israel can be taken only as criticism of Jews is to attribute to that particular interpretation the power to monopolise the field of reception. The argument against letting criticism of Israel into the public sphere would be that it gives fodder to those with anti-semitic intentions, who will successfully co-opt the criticism. Here again, a statement can become effectively anti-semitic only if there is, somewhere, an intention to use it for anti-semitic purposes. Indeed, even if one believed that criticisms of Israel are by and large heard as anti-semitic (by Jews, anti-semites, or people who could be described as neither), it would become the responsibility of all of us to change the conditions of reception so that the public might begin to distinguish between criticism of Israel and a hatred of Jews.

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CURT NIMUENDAJÚ – O FILME (UMA BOA NOTÍCIA)

Curt Nimuendajú, um alemão de Jena que se encantou com histórias de expedições e de povos indígenas lidas em na biblioteca da fábrica (!) Karl Zeiss, veio para o Brasil e se tornou um dos mais produtivos etnólogos brasileiros.

Curt Unkel recebeu o nome de Nimuendajú dos Guarani, em S. Paulo, percorreu o Brasil de norte a sul, viveu (literalmente, viveu, morou e casou) em várias tribos indígenas, e morreu de modo meio misterioso. Segundo Roque Laraia, dentre as várias versões que circulam uma muito provável é que tenha sido assassinado, com veneno, pelos fazendeiros com os quais se atritava defendendo os índios.

Na comemoração dos setenta anos de sua morte, o Museu do Índio do RJ reeditou um de seus livros, “Reconhecimento dos Rios Içana, Ayari e Uaupés” ,

Meu amigo José Bessa estava presente, participando de uma mesa-redonda sobre o etnólogo e relata o dia.

Importantíssimo: não deixem de ir ao site do filme de animação mencionado no texto do Bessa.

baba

CURTINDO NIMUENDAJU
José Ribamar Bessa Freire
13/12/2015 – Diário do Amazonas

Curt com indios foto 2 Curt Nimuendaju morreu como viveu: entre os índios. Foi numa aldeia ticuna no Solimões, em 10 de dezembro de 1945. Ele tinha 62 anos. Nesta quinta-feira, aos 70 anos de sua morte, o Museu do Índio do Rio de Janeiro lançou o livro de sua autoria “Reconhecimento dos Rios Içana, Ayari e Uaupés” com texto e fotos de 1927, além de dados sobre as línguas faladas na bacia do Rio Negro, organizado pelo antropólogo Renato Athias, que na ocasião debateu com a linguista Marília Facó e este locutor que vos fala.

Na minha fala, sugeri que a vida de Nimuendaju daria um filme, cujo roteiro tentei esboçar de brincadeirinha. Cheguei até a propor o nome do ator para interpretá-lo: José Mayer, que tem o physique du rôle. Ele contracenará com Kentapí, índia Canela e com Ireti, Apinajé, namoradas de Nimuendaju com quem casou, que serão interpretadas não por atrizes profissionais, mas por leitoras selecionadas por esta coluna (cartas e fotos para a redação). A direção será de Cao Hamburger, que mostrou entender do riscado com “Xingu” e “O ano em que meus pais saíram de férias”.

O filme começa com esse alemão, nascido em Jena, ainda menino, brincando de índio nos bosques da Turíngia conforme indicado em sua biografia ou nadando no igarapé do Leine, na Baixa Saxônia, quando ainda era conhecido como Curt Unkel – seu nome de batismo. Seguem-se cenas da adolescência na escola. A Universidade de Jena, fundada em 1557, por onde passaram, entre outros, Goethe, Hegel e Karl Marx, fica de fora. É que Nimuendaju nunca cursou o ensino superior, depois de concluir o curso secundário foi trabalhar na fábrica de instrumentos ópticos Carls Zeiss.

Mapa de línguas

Foi lá, na biblioteca desta fábrica (só mesmo na Alemanha fábrica tem biblioteca) que o jovem operário solitário passou a ler, avidamente, crônicas, relatos de viajantes, de missionários e de naturalistas e se familiarizou com as culturas indígenas, as descrições etnográficas e a diversidade de línguas. Encantado, quando completou 20 anos, decidiu viajar ao Brasil para ver os índios de perto.

Economizou uns trocados, e com ajuda financeira de sua irmã Olga comprou passagem de navio para Santos onde desembarcou em 1903. O filme pode mostrar cenas de Curt ainda Unkel caminhando pela estrada até a primeira aldeia indígena, em São Paulo, sua chegada, sua amizade com os guarani e a cerimônia do Nhemongaraí, em 1905, quando trocou de nome ao ser batizado como Curt Nimuendaju, que numa tradução livre significa “aquele que constrói sua própria morada”. Construiu mesmo. O alemão se guaranizou e se abrasileirou. Com facilidade para aprender línguas, logo dominou, entre outras, o guarani, o português e o nheengatu.

curt mapa completo O interesse por línguas indígenas levou Nimuendaju a elaborar o mapa etnohistórico, trabalho minucioso de cartografia linguística feito no final da vida, depois de percorrer o Brasil de ponta à ponta durante 40 anos. Registrou 1.400 grupos indígenas em mais de 500 rios, usando 41 cores e tons para indicar as famílias linguísticas. O mapa tem movimento: a localização dos índios é datada com setas apontando a direção dos deslocamentos. Foi considerado “o maior documento etnográfico brasileiro” por Aloísio Magalhães, então presidente da Fundação Nacional Pró-Memória, que o publicou em 1981, em parceria com o IBGE.

Nas suas andanças por aldeias, quase sempre trabalhando para o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), Nimuendaju organizou coleções de objetos de arte indígena que hoje fazem parte do acervo de museus nacionais, europeus e americanos, com os quais manteve permanente diálogo. Reuniu ainda peças arqueológicas, como aquelas da Cultura Tapajós que recolheu em 1922 depois de uma forte chuva responsável por escavar a principal rua de Santarém, sítio arqueológico que se revelou “uma mina inesgotável de cerâmica”.

Caminhante tapedjá como os guarani, zanzando sempre de um lado pro outro, seu ponto de referência por algum tempo foi a cidade de São Paulo, mas depois passou a residir – digamos assim – em Belém do Pará, lugar de pouso entre uma viagem e outra, onde mantinha seus livros e suas tralhas e onde o esperava dona Lila, doméstica e lavadeira, com quem casou. Foi mais um casamento em sua vida.

As mortes de Nimuendaju

Pode ser interessante o filme sobre Nimuendaju mostrar sua metodologia de trabalho, que implicava longa estadia nas aldeias vivenciando o cotidiano dos índios, a aprendizagem da língua e o estabelecimento de relações respeitosas. Talvez seja interessante reconstituir a visita que ele fez em 1938 ao Posto Paraguaçu, na Bahia, e o contato com uma das últimas falantes da língua camacã, Dona Jacyinta Grayira, que ouvia com dificuldades e não entendia suas perguntas.

Foi aí que Nimuendaju recorreu ao teatro de mamulengo. Com papelão, caixotes e garrafas vazias fabricou bonecos e ressuscitou parentes falecidos de dona Jacynta, movimentando-os sobre uma mesa. Dessa forma, reconstituiu, junto com ela, o inventário dos termos de parentesco na língua camacã e registrou algumas narrativas míticas, além de um vocabulário básico nessa língua.

Este “guru da etnologia brasileira”, andarilho por definição na avaliação de Mariza Corrêa, foi um “autodidata que construiu sua trajetória na etnologia brasileira, pesquisando, pesquisando, pesquisando. Talvez tenha sido o último daquela falange brilhante de etnógrafos viajantes mencionada por Herbert Baldus, que vieram ao Brasil para se embrenhar nas selva e conhecer os verdadeiros nativos do país”.

Finalmente – as leitoras que me perdoem – mas o José Mayer vai ter que morrer, não uma, mas muitas vezes. Será? No final, o filme mostrará as diversas mortes de um dos maiores etnólogos do séc.XX, que não tinha diploma universitário, mas deixou uma obra densa e rica. Aconteceu numa aldeia próxima a Santa Rita, no Solimões. Uma hemorragia fulminante que é contada em várias versões, segundo Roque Laraia.

curt livro Para os madeireiros e seringalistas, Nimuendaju teria sido envenenado pelos Ticuna, que estavam – numa das versões – enciumados com o envolvimento amoroso dele com as índias ou – na outra – mataram para roubar seus pertences. Laraia afirma que ambas reforçam preconceitos que pretendem mostrar os índios como não confiáveis, capazes de cometer crimes hediondos até contra seus aliados, por isso merecem ser tratados duramente. Uma delas, usou o lado mulherengo dele para obter um verniz de “veracidade”.

Os Ticuna contam outras versões. Em uma delas, a causa mortis foi um café envenenado por um “civilizado” da região, desgostoso com a atuação indigenista de Nimuendaju, que sempre defendeu os direitos dos índios e criticou os usurpadores de suas terras. Numa carta a Heloísa Alberto Torres, pouco antes de morrer, Nimuendaju dá nomes aos descontentes. Laraia não descarta a morte natural, já que exames médicos diagnosticaram um ano antes a saúde debilitada do nosso herói por malárias e quinino.

Para um personagem dessa dimensão “uma só morte seria pouca” – escreveu Laraia. Os ossos de Nimuendaju, recolhidos por Harald Schultz, durante muitos anos ficaram guardados no Setor de Etnologia do Museu Paulista, numa caixa de papelão ou numa igaçaba, seu enterramento só seria feito em 1981 pela antropóloga Tekla Hartmann, responsável pelo Setor.

Existe ainda a versão que nega todas as demais e que foi reafirmada no lançamento do seu livro no Museu do Índio nesta quinta-feira: Curt Nimuendaju continua vivo no meio de nós. Será sempre ressuscitado por seus leitores.

P.S. 1 – Uma pena: José Mayer foi despedido antes mesmo de ser contratado. O filme já é realidade e eu nem sabia. Ao final do debate no Museu do Índio um dos presentes me informou que está em fase de conclusão um longa metragem de animação sobre a vida de Curt Nimuendaju, vivido na tela pelo ator alemão Peter Ketnath (“Cinema, Aspirinas e Urubus” de Marcelo Gomes). Ver o link: http://filmenimuendaju.blogspot.com.br/

P.S. 2 – Mais sobre Curt Nimuendaju pode ser encontrado em: 1) Egon Schaden: Notas sobre a vida e a obra de Curt Nimuendaju, Revista de Antropologia volumes 15 e 16 (1967-68); 2) Roque de Barros Laraia: A morte e as mortes de Nimuendaju (1988) – Série Antropologia n. 64 Brasilia; 3) Marta Rosa Amoroso (USP): Nimuendajú às voltas com a história. Revista de Antropologia, USP. 2001; 4) João Pacheco de Oliveira: Nosso Governo – Os Tikuna e o Regime Tutelar”, Programa de P6s-Graduação do Museu Nacional, 1986; 5) Thekla Hartmann (org) Cartas do Sertão – De Curt Nimuendajú para Carlos Estevão de Oliveira Assírio & Alvim, Lisboa, 2000; 6) Mariza Corrêa. Paixão Etnológica. Cartas do guru da etnologia brasileira. Jornal de Resenhas, FSP. São Paulo, 12 de maio de 2001; 7) Dossiê Nimuendaju. Tellus, revista do NEPPI da Universidade Católica Dom Bosco – UCDB – nº 24, ano 13. 2012

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“O CLÔ, a Argentina e nosotros

 

Os personagens e os originais

Os personagens e os originais

Estreou esta semana o filme O CLÃ, do cineasta argentino Pablo Trapero. Um filme muito bom, ótimos atores, trilha sonora muito bem cuidada.

Mas a importância do filme vai bem mais além.

Primeiro, por se tratar de um caso real.

Tão brutal que dificilmente seria aceito como ficção – diriam que autor do roteiro e diretor estavam exagerando.

O fato é que Arquímedes Puccio, o chefe do clã, ex-agente do SIDE – o serviço de inteligência argentino, um dos centros de coordenação das prisões, sequestros e assassinatos durante a ditadura militar – e também membro da AAA – Asociación Anticomunista Argentina – grupo terrorista que atuou criando condições para o golpe militar, e da Organización Tacuara (grupo ultranacionalista de direita argentino), recrutou dois de seus filhos para, com ajuda de ex-militares e agentes da repressão, sequestrar ricaços e extorquir dinheiro da família. Só que nenhum dos sequestrados foi devolvido: todos foram assassinados.

O filho mais velho, Alejandro, era ídolo da torcida argentina de rúgbi, e ajudou a atrair dois de seus colegas para a cilada.

Mas o que torna o caso ainda mais estranho, aterrorizadamente peculiar, é que os sequestrados eram mantidos no porão da casa da família (que, além dos dois filhos cúmplices, abrigava ainda a mãe, duas outras filhas e um filho que sentiu o cheiro de chifre queimado e se mandou). As mulheres da família supostamente ignoravam o que acontecia no porão da casa…

O "clã" original...

O “clã” original…

Até aí, é a história de terror.

Mas o filme vai mais além.

Longe de tratar o assunto simplesmente como um thriller, deixa muito claro o contexto político em que o caso se desenvolve. A cena inicial é de um noticiário de TV, no qual Raúl Alfonsín, o presidente eleito na redemocratização, agradece a atuação da Comissão da Verdade sobre os crimes da ditadura, que foi coordenada pelo escritor Ernesto Sábato.

Ao contrário da que funcionou na Pindorama, a Comissão da Verdade argentina reuniu dados para processar e, posteriormente, condenar não apenas os generais ditadores, como também uma grande quantidade dos agentes diretos da repressão, militares e civis.

O filme mostra também como o “caso Puccio” não foi o único. Vários ex-agentes praticaram sequestros e extorsões. E contavam com o “esquecimento” para continuarem lépidos e fagueiros… e ricos.

Mostra também que os agentes da repressão – apesar da Comissão da Verdade – continuavam operando dentro do governo. O clã só foi desbaratado porque o antigo chefe de Puccio o avisou que ele estava ultrapassando os limites e o bandido não se mancou. Ou seja, “havia limites” para a bandidagem.

Na Argentina, porém, tanto a sociedade quanto o judiciário continuam atentos para as ramificações de atuação dos agentes da ditadura. Que continuam ativos, como alguns fatos recentes mostraram.

Entre nós, no entanto, tudo desanda. Os resultados da Comissão da Verdade (conseguidos com décadas de atraso e sem que os milicos e os diplomatas soltassem todos os documentos) têm o lado positivo de mostrar, mas provocam a frustração de não resultar em ações da justiça.

Na Argentina, o filme já bateu todos os recordes de público do cinema portenho. A politização dos argentinos os leva a querer conhecer mais e com mais detalhes os crimes da ditadura. Para, como disse Alfonsín, expurgá-los. Essa é uma luta continuada.

Entre nós, infelizmente, os que mais teriam a aprender sobre os malefícios da ditadura estarão por aí “comemorando” o aniversário do AI-5 com a manifestação pedindo outro golpe de estado.

É preciso reconhecer que, salvo no futebol, onde a corrupção é irmãmente compartilhada, los hermanos nos dão lições cotidianas de mobilização cívica.

Aliás, só para registro: a família do clã era muy cristiana e rezadeira. E o Puccio, quando morreu, morava com um pastor evangélico fundamentalista. Vai ver que cunhista e malafaísta.

Todos muito cristãos e rezadeiros...

Todos muito cristãos e rezadeiros…

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PIG, REDES SOCIAIS E A INÉRCIA PETISTA

golpe-ultima-hora-2-de-abril-de-1964 No meio de toda essa mixórdia de manipulação, meias-verdades (que sempre são mentiras inteiras) que vemos cotidianamente, ainda não vi quem colocasse o dedo em uma ferida que, no meu entendimento, arrombou o espaço para isso.

Cadê o Samuel Wainer de hoje?

Isso resume a questão.

A ênfase unilateral na participação nas redes sociais deixou o PT e o governo – por conta da política de comunicação social adotada pelos sucessivos responsáveis por essa área vital sem meios de ação. E não falo nem do governo – pois também não defendo nenhuma imprensa chapa branca e oficialista – mas de todos os segmentos progressistas da sociedade brasileira, ou que precisam ser mais informados para poder se posicionar sem manipulação.

É certo que os blogs vários das redes sociais são – até certo ponto – um contraponto para a grande imprensa.

Mas as limitações são muito grandes, e sérias.

Em primeiro lugar, convém não superestimar o alcance dos “cliques” divulgados. A geração de “cliques” se multiplica quando se entra em um dos blogs, e cada matéria consultada gera mais. Dessa maneira, os números apresentados devem ser vistos com muita cautela. Sinceramente, é de morrer de rir quando se escuta alguns editores desses blogues dizerem que tem “mais de um milhão de leitores”.

Em segundo lugar, a polarização atual nas redes sociais fez com que os leitores dos blogs sejam, em 99,9% dos casos, os já convencidos da manipulação da grande imprensa. E vice-versa. Ou seja, os blogs falam principalmente para os crentes – dos dois lados. press-jornal-do-brasil-1-de-abril-de-1964

Ou alguém consulta o blog dos reinaldos e olavos para se informar?

Por isso mesmo, o objetivo de estender para o conjunto da população, desinformada pelos jornalões, informações sobre o que acontece é totalmente frustrada.

Moro em S. Paulo e andar pela Av. Paulista é uma experiência terrível. Todas as bancas de jornais mostram as MANCHETES esculhambando o governo e o PT. E a porcaria do Hora do Povo apenas ecoa tudo isso, com um falso perfume “de esquerda”. Já sabemos, há muito, que esse jornal é somente uma folha de aluguel, que já passou por muitas mãos e continua disponível para o melhor postor.

As análises dos noticiários mostram, abundantemente, que a manipulação se dá, principalmente, na construção das manchetes. Lá no pé das notícias muitas vezes a informação correta até aparece (nem sempre, mas com mais frequência do que se imagina).

press-o-dia-3-de-abril-de-1964 Mas, quem lê as matérias com atenção (e paciência!) para tentar distinguir o joio do trigo? São pouquíssimas pessoas, e geralmente profissionais de comunicação já habituados a perceber a calhordice atual que predomina nas redações.

O povão só vê as manchetes, e as capas dos semanários (com a Carta Capital nem de longe concorrendo em exposição). E forma sua opinião a partir dessas manchetes.

Recentemente, por ocasião de um debate no lançamento do livro “Cartas a Lula”, do Bernardo Kucinsky, estavam presentes na mesa o Franklin Martins e o André Singer, entre outros. Na plateia, vários companheiros diretores de blogs.

19640402-27283-nac-0038-999-38-not Franklin foi assertivo em sua teoria: os jornalões estão acabando, o futuro é o jornalismo eletrônico. A única concessão que fazia era em relação às rádios – nas quais apanhamos de modo ainda mais virulento.

Ora, pergunto eu, será que os donos dos jornais não percebem isso e insistem inutilmente nesse troço fadado ao fracasso, a caminho do desaparecimento?

É subestimar demais a inteligência dos adversários, e não entender porra nenhuma da dinâmica de classes em nossa sociedade.

As empresas jornalistas se diversificam. É o UOL na Folha, os serviços de assinaturas “Broadcast” do Estadão, a rede Globo atrás do jornalão, e por aí vai. Uns com mais, outros com menos êxito nessa tarefa.

As empresas se diversificam – e conseguem dinheiro com isso – porque compreendem muito bem seu papel na nossa sociedade. E são pagos pelas grandes empresas (e também pelo governo, a pretexto da famosa “análise técnica da circulação”) para cumprir seu papel.

UH1 Isso é que os “teóricos” do desaparecimento dos jornalões não conseguem perceber: os jornais são parte do aparelho de dominação de classe, e a classe dominante continuará sustentando-os. Podem até uns serem substituídos por outros. Afinal, o capitalismo também não perdoa determinados graus de estupidez, como mostram, por exemplo, o caso do JB no Rio e do Diário de S. Paulo, aqui. Ambos, que já foram do topo dos jornalões, findaram melancolicamente. E foram substituídos por outros.

Esses “teóricos” não percebem que nas sociedades capitalistas mais avançadas pode até existir grandes jornais com amplitude e critério de informação. Mas só tontos acham que o New York Times, o Le Monde ou o The Guardian são “neutros”. A complexidade dessas sociedades permite – diria até, exige – que haja contraponto de opiniões entre os diferentes segmentos das classes dominantes. Na Pindorama, nem isso. A uniformidade é total, acabrunhante, esmagadora e desmoralizante.

Fazer um jornal de qualidade, com distribuição nacional, é hoje infinitamente mais fácil que no período da Última Hora. Este jornal é que foi um exemplo fantástico. Não se eximia de publicar o que muitos carrancudos chamam de frivolidades (Certinhas do Lalau, crônicas esportivas do Nelson Rodrigues, etc.), mas abria espaço, nas manchetes e nas matérias, para uma interpretação mais decente do movimento político e econômico.

Agora, por favor, não me venham com uma coleção de colunistas, cabeças pensantes, achando que isso é jornal. Tem que ter o cotidiano das cidades, programas de cinema, teatro e espetáculos, reclamações sobre os buracos nas ruas e o mau atendimento nos postos de saúde. Também.

Mas, sobretudo, REPORTAGEM, conteúdo seriamente trabalhado e que não manipule as informações.

Getúlio teria caído pelo menos uns dois anos antes, JK seria deposto e o Jango também nem tomaria posse se não existisse – entre outros fatores, é claro – uma imprensa (com rádio, inclusive) decente fazendo o contraponto. Não impediram o golpe, mas o retardaram bastante.

As tentativas existentes (como a TV Brasil, por exemplo, que tem ótimo conteúdo) são boicotadas pela grande imprensa, que sufoca a audiência e a deixa lá embaixo.

Enfim, e para nem citar outros velhos revolucionários, nós esquecemos o papel da imprensa, menosprezando o que pode ser feito.

E estamos pagando muito caro por isso.

——

As capas de jornais foram copiadas do blog do Mário Magalhães, pelo que agradeço.

 

 

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ELEIÇÕES, CIVILIDADE E MATURIDADE POLÍTICA

Praça da Sé - SP - Caminhada da Vitória

Praça da Sé – SP – Caminhada da Vitória

 

 

macri

Macri comemora a vitória

 

Confesso: acho Buenos Aires uma belíssima cidade, há muitos autores argentinos que curto bastante, como churrasco à vontade, e se bem que é lenda essa história de que existem mais livrarias em Buenos Aires que em todo o Brasil, sem dúvida a tradição de cultura e a ênfase na educação dos argentinos bate a da Pindorama. De longe. Mas não me sinto bem com uma certa megalô hermana. É aquela velha piada que define “cientificamente” o Ego: “É aquele pequeno argentino que cada um de nós trás dentro de si”.

Mas devo acrescentar mais algumas admirações.

A politização dos argentinos. Apesar da ambiguidade dessa história do peronismo – incluído aí a porra-louquice dos montoneros, que também bateu as daqui de longe – a politização dos argentinos é um fato. Não é de hoje, e nem ocasional. É de sempre, e constante. Não nasce de ocasião, é permanente, e sempre está nas ruas.

Eles também já passaram pelos traumas de golpes, lá como cá.

Mas, nessas últimas eleições, deram um banho de maturidade política em nosotros. A campanha presidencial foi dura, disputada, e o resultado final apertado.

Mais estreito do que as daqui.

Vejam só os resultados do 2º. turno, acá e allá:

Brasil:

Dilma – 51,65% dos votos

Aécio – 48,35% dos votos

Argentina:

Macri – 51,40% dos votos

Scioli – 48,60% dos votos.

Ou seja, a vitória do conservador Macri (que eu lamento) foi mais apertada que a da Dilma.

O Scioli cumprimentou o vencedor e foi cuidar da vida.

Por outro lado, a coalização do Scioli não permite que Macri tenha maioria absoluta. A disputa política – e nas ruas – será certamente dura. Mas alguém ouviu falar de “terceiro turno” lá para as bandas do Plata?

Vejam os comentários de Aníbal Fernandez, que ocupa o posto equivalente ao de chefe da Casa Civil da presidenta Cristina Kirchner, no La Nación (o segundo jornal mais conservador do país):

“Para el jefe de Gabinete, Aníbal Fernández, la lectura obligada de las elecciones de anteayer es que fue “evidentemente un empate”. El ex candidato a gobernador bonaerense dijo ayer a la mañana que los 700.000 votos que separaron a Mauricio Macri (Cambiemos) de Daniel Scioli (Frente para la Victoria) hicieron que el oficialismo y la oposición estén de aquí en adelante ‘en paridad de condiciones’. También afirmó que si la diferencia hubiera sido la misma, pero en favor de Scioli, la oposición hubiera puesto el grito en el cielo. ‘Si hubiéramos ganado por 700.000 votos habría tanques en la puerta, aviones dando vueltas por arriba y denuncias hasta en la dirección electoral intergaláctica”, bromeó’.

Aníbal Fernandez, com certeza, também lê os jornais brasileiros e sabe perfeitamente o que aconteceu por aqui.

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